A beleza da palavra mantida

Dia desses, encontrei um professor por quem tenho muito apreço. Foi um encontro rápido, afinal estamos sempre correndo e ele, embora com mais de oitenta anos, mantém vida muito ativa. Boas conversas, mesmo curtas, costumam deixar efeito residual, fazem nossa mente a elas retornar, ruminando até que seu valor seja definitivo. Nesse caso particular não importou o conteúdo, sim o significado.Meses antes, tínhamos conversado mais detidamente sobre diversos assuntos e, no meio deles, en passant, disse que teria determinada atitude em meu interesse. E o fez. Foi sobre isso nossa rápida conversa de outro dia – havia cumprido o prometido.

E o que tem de notável em alguém cumprir o prometido por suas palavras? Tem muito. Não deveria, mas tem. Tomo a argumentação em sentido contrário, digo que é muito mais comum em nossos dias as pessoas descumprirem combinados, mesmo quando estes têm teor de promessa ou tratativa, e o que então poderia esperar de uma promessa feita de forma simples, dita uma vez, sem mudança de ênfase ou tom da voz, perdida no meio de outros assuntos?

Continuando, agora canhestramente, minha primeira reação foi de surpresa ao notar que ele não esquecera e durante meses cumpriu o prometido, mesmo sem nos encontrarmos no intervalo entre uma conversa e outra, ou seja, sem oportunidade de rememoração. A segunda reação foi também de surpresa, pelo fato de ter-me espantado com o cumprimento da palavra. E isso diz muito. Quer dizer que, por mais que individualmente me empenhe em cumprir tudo o que minhas palavras encerram, considero exceção o cumprimento pelas pessoas em geral.

Desrespeitar compromissos firmados parece a tônica de nossos dias: encontros não efetivados, horários descumpridos, dívidas desonradas, prazos excedidos ou, simplesmente, o esquecimento por completo de uma promessa. Tudo isso desgasta, é fastidioso, esgota a energia da nossa disposição para construção de um ambiente melhor para todos, quase sempre impede realizações ou torna nosso trabalho dobrado. Perdemos em eficiência.

Nem mesmo Zeus, potentado dos deuses da Grécia antiga, estava livre de manter sua palavra: às margens do Estige, todos, inclusive os deuses, faziam juras e estas não podiam ser descumpridas. A mitologia e os poemas épicos eram a base da educação das crianças naquele tempo e não é à toa que todos os deuses se submetiam a essa regra, uma regra primeira porque essencial. O Olimpo submetia-se à manutenção da palavra.

Quando o desleixo com a palavra acordada torna-se aceitável, passando a não suscitar reação, estamos à mercê do acaso. Volto a tema tratado em outro texto, sobre nossa incapacidade de pensar o rumo do país por falta de confiança nas pessoas e na maneira que os fatos nos são apresentados. As duas situações podem parecer distantes, mas não são. Há dois anos, assistindo ao noticiário político, tomei conhecimento de um tal “índice de traição”, inventado e usado em referência ao quanto, numa votação secreta, os deputados federais e senadores honrariam o compromisso assumido de votar em um dos candidatos à presidência das respectivas casas. Num ambiente permeado por promessas não cumpridas, trata-se realmente de uma tentativa vã de quantificar incertezas. A simples invenção e a veiculação televisiva de um índice como esse mostra o quão intersticial é o descuido com os compromissos. Descobri que alguns partidos escalaram membros para fiscalizar seus congêneres. Seria possível confiar nesses fiscais? Institucionalizou-se um meio de avaliar a mentira entre os parlamentares, por eles próprios.

Meu professor dista da maioria de nós pelo menos três gerações. É de um tempo em que a palavra bastava, não havendo necessidade de agentes externos para assegurá-la e, quando havia desvios (porque estes sempre existiram) o assombro geral imediato surgia como corretivo. Aventar os motivos pelos quais se tornou normal não honrar compromissos exigiria estudo e meditação mais aprofundados e seria matéria de ensaio, não da crônica.

Renato Russo foi muito feliz em escolher uma frase conhecida por civilizações há milênios: “disciplina é liberdade”. Cumprir obrigações liberta-nos de várias maneiras. A raposa do livro “O pequeno príncipe” nos apresenta a mesma sabedoria de outra forma, mostrando que, sem disciplina, podemos perder mesmo o que nos é mais caro: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três horas começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas, se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração… É preciso que haja um ritual”.