A dura vida

Para a maioria das pessoas, a vida exige empenho, esforço e muito trabalho. Em outras palavras, a vida tem certa dureza. A dureza da vida não é a mesma para todos, o que é normal, pois cada um chega ao mundo com diferentes habilidades, família e posses. Se considerarmos o nascimento como o ponto zero de cada um, esse ponto é, por isso mesmo, diferente. Se se vai para frente ou para trás a partir daí, deveria ser responsabilidade da família e do esforço individual. Não tem como ser de outra maneira, é ilusão querer que todos obtenham os mesmos resultados na vida, se os desempenhos são tão diferentes.

Mas isso não é tudo. Além das características individuais acima, há, a contribuir, a desigualdade e o engodo.

A verdadeira desigualdade social não é aquela referente às posses de cada um, pois estas são particulares e não dizem respeito à sociedade, mas à diferença de acesso ao que é tido como adequado e de direito para a vida nessa sociedade, ou seja, aquilo que se baseia no cumprimento das leis.

Quando as leis não são cumpridas, indivíduos são lesados e estes, sim, começam a luta pela vida em situação pior que o zero, em desvantagem. Exemplos bem evidentes disso estão nas condições de saneamento, alimentação e estudo. A maioria da população do país vive sob inadequadas condições desses três aspectos tão importantes. Isso quer dizer que será mais duro obter resultados, que o empenho deverá ser melhor para ultrapassar maiores obstáculos. E nesse cenário surge o engodo, as promessas de que algum dia tudo ficará ou será bom, que há um jeito fácil de se conseguir “igualdade social”. E há os sectários do engodo, quase sempre tendo começado o jogo alguns pontos à frente do zero, se apresentam como justiceiros sociais a tomar conta dos “menos favorecidos”, aqueles que, em sua visão, precisam ser pegos pela mão e conduzidos para uma vida mais justa, o que quer que queiram dizer com isso. O engodo faz uso de ideias abstratas, sempre em potencial, nunca com resultados calcados na realidade. Pode soar estranho, mas há uma relação entre a manutenção da miséria e a autopromoção dos benfeitores nos meios sociais.

“Deus dá o frio conforme o cobertor”. Essa frase da música de Adoniran Barbosa traz resignação, tão comum à ideia popular de que por maior que seja a dureza da vida, há que ser suportada. O problema da vida dura é quando ela maltrata e não se percebe, e o engodo é difícil de ser percebido. Não há situação mais deplorável que a de precisar receber ajuda, de quem quer que seja, para o próprio sustento – é a maior desonra a que alguém pode se submeter, é a descaracterização do ser humano. E traz ideia contrária à da música, pois é a oposição entre lutar até o fim contra a dureza da vida, sem desistir, e acomodar-se com base num suposto direito a um mínimo de cidadania sem a contrapartida de um trabalho.

É de George Orwell a seguinte frase, escrita no livro “A revolução dos bichos”: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. A frase surge no momento em que o personagem Napoleão começa a corromper a sociedade dos animais, transformando-a em uma sociedade tão corrupta quanto a dos humanos que eles tanto combateram verbalmente. Verbalmente. Não há alguma semelhança no que vemos hoje em nossa sociedade? Vivemos num país onde alguns cidadãos levam vantagem, desonestamente, sobre a maioria – são mais iguais que outros -, transformando a vida de muitos em uma luta muito, muito mais dura.

2 thoughts on “A dura vida”

  1. Perfeito comentário, Renê, sobre
    um dos aspectos que mais me enoja em nossos gângsteres políticos: o uso das comoventes narrativas sobre o sofrimento humano que eles próprios contribuem para que aconteça como justificativa para achacar a sociedade em busca de mais verbas, mais privilégios, mais impostos, mais, mais, mais… E ao encontrar resistência às suas propostas cafajestes, sem a menor vergonha, acusam o “contribuinte” (não ficaria melhor empregado o uso do termo “otário”?) de ser egoísta e “privilegiado”!!! A parte triste desse enredo burlesco é que essa conversa AINDA COLA! Nesse ponto é imperioso e inescapável constatar que ainda cola por que falta aos nossos compatriotas uma crença que eu via bem arraigada em pessoas mais simples na minha infância: a de que para fazer frente à dureza da vida só muito trabalho, estudo ou força de vontade (melhor se os três juntos). Quando foi que caímos no conto-do-vigário de que os engravatadinhos de Brasília nos suavizariam as agruras da vida? Quando foi que perdemos a fé nos valores que transmitíamos, geração após geração e passamos a acreditar que um artigo na Constituição seria a garantia de vida digna? Precisamos resgatar a simplicidade de olhar a vida que eu observava na gente pobre e simples da minha infância e que nos roubaram os vendedores de ilusão. Fraterno abraço, Renê! Sou fã de seus textos.

    1. Omar, amigo, bom ter comentário seu!
      Algumas das ideias que usei nesse texto já estavam flutuando na teia de minha memória (essa é uma metáfora de Henry James) desde há muito.
      Concordo com tudo em seu comentário. Ele e o texto são complementares.
      Estive em Portugal em 2013, no auge da crise lá, com 20% ou mais de desemprego. Vi as pessoas nas ruas e na televisão se organizando em cooperativas para prestar pequenos trabalhos comunitários em troca de comida, roupa, pouso etc. Em muitas ocasiões perguntaram, sei lá por que, se eles não exigiam ajuda estatal. As respostas eram uniformes: eu tenho que obter meu sustento pelo meu esforço. É uma cultura que se perdeu no Brasil. Sinal dessa perda é a depredação de agências da Caixa Federal quando há boato de suspensão dos auxílios.
      Essa perda de fé a que você se refere veio aos poucos, mas só fomos perceber com o processo já instalado, processo esse que vimos bem de perto durante a faculdade e, infelizmente, o apoiamos àquela época.
      Bom contar com suas leituras. Fraterno abraço.

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