As nossas paixões

Sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão – essa é a primeira entrada para o verbete “paixão” no Dicionário Aurélio, a qual refere-se ao intenso desejo amoroso e sensual. Acredito que essa sensação não seja estranha, que todos já tenham se apaixonado alguma vez, desta forma que nos faz lidar com a vida de outra maneira, enxergar diferente aquilo que sempre se viu.

Essa crônica trata, porém, de outra definição de paixão: de apaixonar-se em um sentido mais frequente, de um estado apaixonado ao qual a língua italiana reserva o termo appassionato – entusiasta, quem tem vívida dedicação por alguma coisa.

A paixão no primeiro sentido é quase sempre involuntária, surge e nos tira do prumo com violência, por isso muitas vezes amedronta. No segundo, depende muito mais de nossa vontade, de nossa esperança e de uma predisposição a ser enleado. São as paixões as quais perseguimos, objetos de nossos desejos conscientes, e que se tornam a força motriz a nos por de pé diariamente. Se no primeiro caso é desejável certa falta de controle, no segundo, um descuido com a paixão pode enfraquecê-la até o ponto de ser apenas uma lembrança que não mais causa qualquer movimento interior. Essa lembrança pode tornar-se perigosa, permanecer como derrota da qual não se esquece facilmente.

Uma coleção de derrotas pode, com o tempo, entorpecer. Esse estado de insensibilidade, de perda do interesse, nos acostumamos a chamá-lo de depressão. Ouvimos muitas vezes que esse é o grande mal da sociedade moderna.

A mim me espanta o fato de termos cada vez mais à mão meios de subsistência e proteção à vida e mesmo assim a cada geração parece haver mais pessoas sem ânimo para o desenvolvimento pleno daquela. Do latim, animus significa espírito ou mente e anima significa alma. Podemos tomá-los por sinônimos, relativo ao aspecto imaterial de nossas vidas. A falta de paixão arrefece nossa alma, mina nosso espírito.

Em uma era onde, para a maioria, não é mais necessário empregar energia física e mental na busca de alimento ou abrigo, é comum ouvirmos “sinto um vazio na alma”, “perdi o sentido da vida”. O que nesse mundo tem desviado nossa atenção, ocupado nosso espírito, fazendo-nos negligenciar nossa alma? Quais motivos nos levam à perda das paixões? Ou, pior, o que tem nos entorpecido, deixando-nos insensíveis à paixão?

Acredito que as respostas para essas perguntas passem pela falta de introspecção. Em um mundo que nos impulsiona a comportamentos controlados, por isso mesmo estimulados, necessitamos do resgate da individualidade de cada alma. Aí reside parte do segredo: somente um exame interno pode nos mostrar nossos reais interesses e aptidões. A combinação aptidão-paixão é poderosa e encontrá-la só é possível através de profundo autoexame, de um contato corajoso com nossa essência. Viver será doloroso, é impossível não sê-lo, mas esquivar-se de si mesmo pode transformar dor em sofrimento irreversível e aniquilador.

Seria esta uma crônica de autoajuda? Sim, e não. Sim porque acredito que sirva para algo, do contrário não a escreveria; e não, não da forma pejorativa com a qual nós costumamos encarar o termo autoajuda – como se fosse possível um texto ensinar algumas regras de conduta que mudaria nossas vidas de forma tão definitiva. Esse tratamento ou resgate da alma deve ser perene, resistir às tentações da facilidade de nossos dias, e depende muito de um esforço interior. As civilizações nos legaram histórias de paixões e da Paixão, e isso não pode ter sido sem um motivo importante: por mais que tentem nos desviar do caminho – um caminho que é potencial para cada um –, nosso interior deve manter-se firme suficiente para prosseguir com o que trazemos fundo na alma.

2 thoughts on “As nossas paixões”

    1. Longe disso, professor!
      É apenas um esforço em observar a realidade e, quem sabe, vislumbrar alguma verdade.

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