Contador de histórias

Contar uma história exige sensibilidade. Além disso, é preciso habilidade para transportar o ouvinte ao mundo ficcional, porque contar uma história nada mais é que inventar um mundo na mente do outro através da voz do contador, quase como o coelho da história da Alice ao instigar a personagem de Lewis Carroll a entrar no buraco. Trata-se de um convite à imaginação. Na verdade, Alice vai para outro mundo na sua própria cabeça, através de um sonho – e seria diferente disso o que faz o contador de histórias? A voz que nos conduz para esse mundo (que existe somente na cabeça de quem ouve) encerra o segredo de nos encantar, ou seja, é nela que estão a sensibilidade e a habilidade. E voz não quer dizer o som emitido pela garganta do contador, mas o meio de usar as emoções e a memória do ouvinte para construir o mundo ficcional na cabeça deste.

Desde sempre gostamos de ouvir histórias e é bem possível que ter um corpo de histórias em comum tenha sido fator decisivo de união entre grupos humanos, possibilitando o surgimento das primeiras civilizações. As primeiras histórias estão perdidas para sempre, pois nunca foram registradas, apenas passadas de um a outro, oralmente. Algumas, tão recentes quanto quatro mil anos atrás, chegaram até nós por terem sido registradas depois de séculos de contação, certamente com alterações a cada geração de contadores (quem conta um conto aumenta um ponto, não é mesmo?).

Boa parte de nosso pensamento é imaginação e esta deve ser estimulada e educada, por isso crianças amam ouvir histórias – a imaginação delas está para ser construída, como um livro em branco à espera de que nele se deitem linha após linha. Amam também inventar histórias, imaginam amigos, lugares, situações… Mas não só, contam as histórias que inventam: muitas vezes fazem-se personagens das narrativas, outras vezes contam que alguém contou, ou que alguém contou que contou… Esta última é uma técnica narrativa bastante antiga, em que o contador da história faz uso de um personagem para contar a história em questão. Há grande beleza em contar uma história sobre alguém que conta uma história de alguém que está contando uma história… é assim que Sheherazade consegue manter-se viva, fazendo uso de diversos níveis de narradores, como nas matrioskas de que falei na primeira crônica deste site.

Deve-se ter cuidado com o pragmatismo a que somos submetidos no dia a dia e os efeitos que ele pode ter em nossa imaginação. Cada um, ao escolher seguir um ofício, adquire os meios de comunicação inerentes a cada atividade específica, o que quase sempre significa linguagem formal, técnica, e sem possibilidade de multiplicidade de sentidos, característica primeira da linguagem ficcional, isto é, da contação de histórias. Os textos técnicos sempre me incomodaram pela feiúra, pela rigidez da forma – ouvia da maioria dos docentes que a linguagem tinha que ser técnica e impessoal. Imagina ter de controlar toda uma vertente de palavras belas, sonoras, substituindo-as por termos técnicos, insípidos! Há motivo para isso: um texto não-ficcional, o qual nem mesmo, a rigor, poderia ser chamado de literatura, mas bibliografia ou outro nome, precisa ser incisivo, ter uma ou pouquíssimas interpretações. Ou seja, o mundo técnico tem que ser o mesmo para todos, e todos têm que falar sobre o mesmo significado, da mesma forma. Mas não precisa tornar o assunto chato por causa de um texto burocrático, senão estaremos fazendo apontamentos, nada mais.

É possível tratar dos mais diversos assuntos, mesmo técnicos, e criar um enredo. Isso desperta o interesse, mostra como o conhecimento de cada profissão está inserido no mundo da realidade. Uma boa e bem contada história é capaz de mostrar muito sobre a realidade prática, bem mais que a frieza de um texto técnico que, embora imprescindível, é insuficiente.  Tomo proveito, mais uma vez, da figura de um professor (existe melhor?), hoje amigo e assíduo leitor de meus textos e que antes de existirem cursos de contação de histórias para contribuir com técnica e desenvolvimento de habilidades, contava histórias de forma natural, acertando em tudo: volume da voz, escolha das palavras, pausas, mudanças de tom em consonância com diversas emoções… a sensibilidade de que falei no início. Boa parte de suas histórias se assemelhavam à “narrativa maravilhosa”, aquela onde o enredo permite, ao final, uma “moral da história”, um aforismo.

Stephen Koch, americano professor de escrita criativa, tem palavras certeiras sobre o tema, em seu livro “Oficina de escritores”: “Na incubadeira silenciosa da maioria das obras de não-ficcção há um romance não escrito; e uma história verdadeira assoma nas sombras de quase todo romance ou conto”. Há uma intenção natural para a criação de enredos, como se disso dependesse nosso entendimento sobre a realidade. A crueza dos acontecimentos da vida real não pode servir de inimiga da nossa imaginação. Contadores de histórias fazem essa ligação entre realidade e imaginação de forma tão natural, a ponto de não nos permitir a distinção entre ficção e não-ficção.

Para finalizar, a ligação entre realidade e ficção ocorre através do senso estético. Não é belo tudo isso?

4 thoughts on “Contador de histórias”

  1. Que texto incrível!
    Me fez lembrar muito de uma tia-avó que contava histórias para mim na infância e que sabia exatamente como fazer isso, exatamente com esse tato e percepção que tu citou no texto. Lembro até hoje como a minha imaginação ia longe com as histórias e eu sempre queria mais. Amava!
    Quero tentar cultivar esse hábito tão incrível com meus filhos para que depois eles possam imaginar por sua conta própria com os livros.

    BLOG COISA E TAL

    1. Sim, tem pessoas que possuem uma tal sensibilidade inata para narração.
      Tem muita sorte quem pôde contar com isso na infância. Meu avô gostava de contar “causos”, alguns inventados (soube depois), mas a beleza está aí também: misturar realidade e ficção.

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