Crônica sacal

Joana tomou banho e acabou de se arrumar. Hoje faz quinze anos que está casada com Aristeu. No aparador da sala é possível ver a foto do enlace, ela quase a mesma, ele diferente. Olha para o marido deitado no sofá: de cueca, camiseta e meias, apoia a lata de cerveja na barriga, enquanto assiste apaixonado ao seu time do coração.

A vida tem algumas estranhezas, os prezados leitores concordarão. Uma delas é a mesmice. Não preciso dizer que todos conhecemos ou somos Joanas e Aristeus. Também não quero o pedantismo das justificativas fáceis para este ou aquele comportamento, mas aí estão, Joana e Aristeu, juntos há quinze anos, bem separados.

Fazer textos sobre o cotidiano pode ser sacal. O cotidiano é sacal, ou não é?

Há pessoas cujas histórias são dignas de um romance, outras vivem acontecimentos típicos de um conto e algumas tomam parte em eventos tão intensos e indescritíveis que só o lirismo dos versos daria conta de registrar. São poucos. A maioria de nós e dos fatos de nossas vidas caem exatamente na crônica, texto repetitivo que almeja reação do leitor por contar que este reconhecerá naquele a mesmice nossa de todos os dias. Do contrário, não será crônica.

A crônica pode ser o texto engraçadinho sobre o amor, a denúncia sobre a vida pública, o orgulho do time de futebol, a catástrofe sobre as finanças, trocadilhos espirituosos sobre personalidades, curiosidades sobre insossos. Repetições.

Precisamos terminar essa crônica sacal. Voltemos ao comezinho.

Se Aristeu hoje é bom em alguma coisa, essa coisa se chama desleixo. É a vida corrida, a necessidade de colocar dinheiro em casa, o chefe que azucrina todo dia. O que mais, Aristeu?

Joana, toda perfumada, olhos vivos e aquela expressão da mulher que devaneia uma aventura amorosa. É assim que diz para si própria – “quero me sentir amada”. Olha para o retrato no aparador, concentra-se em perceber se tem algum sinal de vida na sua genitália – nenhum. Sai sem se despedir. É hoje, Joana. Vá logo escrever a crônica da sua vida.

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