Deflexão

Ela não podia ter dito aquilo. Não daquele jeito, agressivo, como se a culpa fosse toda minha, se tudo tivesse sido por minha vontade, de mais ninguém. Ela sabe que não, mas nunca dá o braço a torcer. Como pude viver tantos nos com uma pessoa que não muda, não evolui um centímetro? Ela é uma planície que se estende a perder de vista, toda igual, sem um acidente sequer. A vida tornou-se mesmo isso – um longo caminho plano.

Uma escada – subo, por que não? Hoje é um ponto de deflexão.

Estou acostumado às suas injustiças, mas dessa vez as crianças… Por essa não esperava. Iníqua: palavra bonita, mulher indecente – colocou nossos filhos contra mim. E eles caíram, morderam a isca e repetiram o falatório dela. Foi esse o soco na nuca que me pôs de joelhos. Que desgraça ouvir meus filhos repetindo aquelas falas vazias, frases tronchas balbuciadas – autômatos sem identidade.

Como alguém pode virar adulto, procriar, sem conseguir argumentar? Nem que seja um argumento chinfrim, direto, algo como “se aquilo é isso e aquilo outro é isso, logo, aquilo é aquilo outro”. O desenvolvimento mental deveria controlar os hormônios, a ausência de raciocínio manteria os imbecis eternamente pré-púberes!

Degrau por degrau, subo.

Melhor não me lembrar de sonhos juvenis abandonados a cada conquista nossa, um nosso quase todo dela – “amor, temos que construir nossa vida, tijolinho por tijolinho, até ficar um prédio bem alto!”. Cada degrau de uma vida comum, de um pensamento vulgar.

Alto suficiente.

Afinal, também não devo ser tão bom de raciocínio. Deveria ter me livrado logo dela, mas não pude. As emoções sempre cegam a lógica, sempre. Um apaixonado vive rodeado de metáforas, inventa-as e se encanta com elas. Como são belas, quanto dominam a mente! Criam uma reflexão agradável do cotidiano, e esse é o grande problema. Nunca que hoje eu deixaria acontecer tudo como foi. De jeito nenhum! Você pensa que uma coisa compensa a outra, que uma mania é apenas uma virtude exacerbada, que “no conjunto” a pessoa tem mais valores que desagrados. Maldita compensação, deixa tudo turvo!

Como esse céu de hoje, carregado. Toda a cidade até seus limites no horizonte, os quatro cantos cobertos por um cinza escuro.

Por anos deixei-me guiar pela crença de que tudo poderia melhorar. Depois vieram as crianças. Você sempre se renova quando chegam os filhos. Sempre há muitas coisas que não foram boas na sua vida e você quer que seja diferente com eles. Se tudo vai bem com seus filhos, você suporta os ventos. Até vendavais. Eles não podiam ter ficado do lado dela, não desse jeito. Nem pareciam meus filhos – frios, olhando para o nada, cada um apoiado em um ombro da mãe.

Gélidos como esse vento nas minhas costas.

Pelo menos a vida dos dois já está encaminhada. E ninguém pode dizer que não estive com eles em cada passo, como nos primeiros, de mãos dadas. Aquelas mãozinhas macias que apertavam as minhas toda vez que tinham medo de alguma coisa. Nem imaginam como tive prazer a cada aperto. Tem algo melhor que um pai pode fazer que servir de esteio? Sei que andam agora por conta própria, disseram isso várias vezes. Que bons ventos os empurrem sempre.

Um vento a favor sempre ajuda nas decisões: passos confiantes, decisão tomada.

Se, trinta anos atrás, tivesse anotado um guia para uma vida, hoje o estranharia por completo. Costumava me perguntar quais eram minhas verdades e se minhas verdades eram verdades para todos. E pensava que trinta anos depois teria as respostas. Um homem aos cinquenta está maduro, na plenitude de sua capacidade mental, mas me encontro sufocado pelo vazio. Qual será essa pergunta que sei estar aqui dentro, mas não consigo dizer pra mim mesmo? Sinto que é a quase pergunta do voltar para vida ao despertar toda manhã. Senti-a outras vezes, confundido pela estupefação diante do belo, força escandalosa e arrebatadora.

É o pé um tanto para fora da última borda. Sempre há uma borda a ser transposta.

A liberdade, enfim, da decisão. Velocidade que aumenta, de tudo que se finda. Eis que tenho, agora, a pergunta e sua própria resposta:

Quem fui eu?

2 thoughts on “Deflexão”

  1. Excelente contos. Com palavras artísticas e ao mesmo tempo exprimindo uma realidade que muito homens passam. Tem mulher que fica muito maquiavélica, iníqua, mesmo; principalmente quanto não pode vencer pelo argumetno.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *