Democracia dos palpiteiros

O teor de nossas falas varia de acordo com o ambiente e os interlocutores – de formal e meticulosamente pensado a coloquial e livre, opinando sobre os mais diferentes assuntos. As últimas falas ocorrem, via de regra, em casa, em círculos restritos de amizade, no ambiente de trabalho, etc. Todo mundo, alguma vez, já falou mais do que devia, perdendo oportunidade de ficar quieto. Uma avaliação equivocada ou um descuido nos faz emitir um conteúdo inapropriado para alguma situação.

“As mídias sociais deram direito à fala a legiões de imbecis…” Muitas pessoas já ouviram ou leram esse trecho da fala do escritor Umberto Eco em uma cerimônia na Universidade de Turim. O italiano ressaltava o efeito do mundo conectado na distribuição da informação, nesse caso opiniões que partiram de imbecis e alcançaram impensável número de pessoas se rememorarmos o mundo antes da era digital.

A despeito de avanços na legislação sobre a internet, o meio virtual continua campo onde a impessoalidade e, até certo ponto, o anonimato permitem a livre emissão de opiniões sem maiores consequências.

Basta acompanhar noticiários eletrônicos e mídias sociais para notar que em nossos dias é mister dar opinião sobre qualquer assunto. Sendo impossível saber ou ler e aprofundar-se acerca de todos os assuntos, a chance de as opiniões tornarem-se cada vez mais palpites é grande. O adágio popular “se opinião fosse importante eu pagava para ter”, ou qualquer uma de suas variantes deveria ser mensagem automática de “pop-up” em cada aba aberta nos navegadores. Sem exagero. Quem tem expertise em algum assunto sabe exatamente do que estou dizendo: são necessários tempo e reflexão para que opinião não seja apenas um palpite.

O caso mais recente de propagação da voz de imbecis, e que motivou esse texto, ocorreu na semana passada. Um funcionário público foi agredido fisicamente por um sujeito porque este considerou inadequada a prestação de serviço daquele. De forma sorrateira, o funcionário foi agredido sem possibilidade de defesa. Noticiado o caso, começou o coro dos palpiteiros: uma leva dando razão ao agressor e conclamando a população a ter a mesma atitude sempre que possível; alguns poucos dizendo que isso não se faz; outra leva dizendo que cada caso é um caso (um jargão manjadíssimo dos palpiteiros, quase sempre precedido de um “veja bem…”), mas que se o funcionário mereceu, a motivação e o estado emocional do agressor devem ser levados em conta; e uma última leva, na verdade a maior de todas, que não conseguiu entender o simplório relato jornalístico, confundindo ora os envolvidos ora o local do ocorrido ora realidade e ficção. Deixei em estrato à parte um grande número de pessoas que escreveram em uma língua que desconheço, embora esta compartilhe de algumas palavras do português.

No coro, muitas vezes falando mais alto, está a vergonhosa proporção de analfabetos funcionais com diploma universitário: variando entre 50 e 80%, de acordo com o grau de deficiência avaliado. O Brasil tem formado um exército de diplomados que lê um texto e não entende seu conteúdo. Apesar disso, a imbecilidade tem nos diplomas um anteparo poderoso, quase um “você sabe com quem está falando?”

Uns podem dizer que é a democratização da internet. Não acredito. Para mim trata-se apenas de propagação do achismo, das falas mal pensadas, das oportunidades perdidas de se ficar em silêncio. Mas tenho que admitir que há democracia quando me lembro de que todas essas pessoas votam. E que frequentemente recebem os nossos votos.

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