Ensinamentos das ervilhas

Cor da pele e raça são motivos de discórdia desde há muito. Sempre houve quem se dissesse superior nesses atributos, a fim de subjugar outrem. Assim escravos foram feitos, guerras justificadas e, principalmente, humanos foram intencionalmente divididos em seres de primeira, segunda, terceira… inúmeras classes. A História nos conta que pessoas de praticamente todas as raças e cores de pele já foram escravizadas em algum período. Infelizmente, reflexos da escravidão e discriminação racial não são coisa do passado, assunto de historiador.

Há algumas semanas, uma discussão sobre preconceito e cor da pele ganhou repercussão nacional – e gerou balbúrdia nas redes sociais: uma atriz disse que a cor da pele de seu filho é o que “faz com que pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros”.

Certo é que a maioria das pessoas conhece alguém em conflito com sua própria cor ou raça, ou em conflito com a raça e a cor dos outros. Minha intenção com este texto não é entrar na discussão que tomou conta da internet, mas sim contar um “causo” que presenciei ainda na faculdade.

Era um dos meus últimos plantões no Centro Obstétrico. A noite ia tranquila, nenhuma gritaria. Muitos haviam nascido, todos vivos e bem, por isso aproveitava para estudar os mecanismos do parto natural. Fui interrompido por uma voz impaciente, vinda do balcão de atendimento do posto de enfermagem:

– Como vocês fazem uma coisa dessas? – perguntava, irritada, uma mulher de uns 35 anos e que oito horas antes dera à luz seu terceiro filho, naquele momento já grudado ao seio da mãe. Ambos estavam muito bem, de modo que não entendi prontamente o motivo do alvoroço.

Chegando perto, vi na mão que não segurava o bebê, a Declaração de Nascido-Vivo sendo agitada e jogada contra o balcão. Notei que não poderia, nem deveria, fazer qualquer coisa. Fiquei por ali, observando.

– O que eu vou dizer quando chegar em casa? Vou dizer pro meu marido, que é branquinho de olho claro, que ele tem um filho mulato? Já até vendo a resposta: “some com esse mulatinho da minha frente!”.

– Calma, dona Fulana, a senhora está muito nervosa, vamos conversar – Quem falava era uma das experientes auxiliares de enfermagem, com mais de vinte anos no setor.

O motivo de toda a celeuma era ter sido assinalado um “x” no quadradinho referente a “mulato” na declaração do menino.

– Conversar o quê? Tem dois filhos em casa, do mesmo pai desse aqui, um branquinho e uma branquinha, como vou registrar esse mulatinho?

A funcionária, com toda a calma:

– É, mas a senhora é bem morena, não é não?

Ela tinha razão: a cor da pele da mãe era de um vermelho e um marrom matizados com perfeição, sendo impossível não dizer que ela era morena. Tinha nariz de base larga, olhos pretos e pálpebras levemente puxadas, testa ampla. Seus cabelos pretos, ondulados e compridos, trançados até o meio das costas, e uma tiara deram-me a impressão de estar diante de uma descendente de índios. Após refletir um pouco, a mãe disse:

– Sou, mas isso não quer dizer nada. Meus outros dois são brancos e o pai deles é branco que nem vela! – Disse isso e mostrou relaxamento na fronte, percebido de relance pela auxiliar de enfermagem: sabia ter começado a ganhar terreno. Virou-se por um instante para pegar um papel sobre o balcão, notando minha presença. Deu uma piscadela e continuou:

– Então, mas olha bem pra o menino… Ele tem um rosado forte, é bem coradinho, senhora não acha não?

Nova revolta:

– Rosado forte? Eu vou procurar meus direitos, e processar o hospital se meu filho não for registrado como branco! Eu tenho cabelo liso, não percebeu?

Nessas horas, conhecimento histórico (ou popular, quem sabe?) pode ser valioso. A auxiliar o tinha:

– A senhora já ouviu falar em bugre? A senhora tem os traços de bugre. Tenho certeza que seus avós foram pegos no laço…

Tentativa por demais arriscada, a meu ver, mas que logo se mostraria salvadora.

– É, minha mãe falava que minha avó era bugre. – Fitou sua mão espalmada no ar, depois o braço todo até o ombro – Povo forte, né?

– Claro que sim – logo respondeu a outra.

– Ela me falava que eram tudo guerreiro, que foi tudo pego desse jeito que a senhora falou aí… no laço.

vendo, seu filho tem sangue deles…

– Ah, mas é tão clarinho…

Logo veio a cartada final, demonstração de verdadeira excelência no assunto:

– Quer ver como a senhora tira essa dúvida de vez? Traz ele aqui.

Foram até uma sala de exames.

– Põe ele deitadinho aqui e tira a roupinha. – Com o menino todo despido, continuou – A senhora sabe como que vê a cor da criança? É pelo saquinho… Olha o saquinho dele como é pretinho.

A mãe parou, olhou, pôs a mão no saquinho e até balançou de um lado para o outro. Depois de alguns instantes de contemplação:

– Mas como que um saiu de saco branco e outro de saco preto?

Olhando em minha direção, a auxiliar mostrou que chegara minha vez de participar. Aproximei-me. Por alguns instantes fiquei acariciando a cabeça do bebê, ganhando tempo. Foi então que me vieram as ervilhas de Mendel. Sim! Como era maravilhoso recordar que de ervilhas verdes nasciam também amarelas!

– A senhora conhece ervilha, não é mesmo? Então, muito tempo atrás, um monge, talvez por influência de Deus…

Evidente que a cor da pele tem uma herança genética mais complexa que a da cor das ervilhas, mas depois de algum tempo explicando a herança mendeliana, tudo ficara bem e o menino do saquinho preto acabou mulatinho mesmo. Não sei como o pai encarou a situação, mas duvido que negasse o sangue forte dos bugres (mesmo que estes não sejam mulatos, quem se importa?).

Gostaria que algum dia as questões de raça pudessem ser resolvidas de modo menos belicoso, como nessa cena pitoresca que acabei de descrever. Pelo visto, baseando-me na energia que vejo despendida em discussões estéreis nas redes sociais, esse dia parece distante.

2 thoughts on “Ensinamentos das ervilhas”

  1. KKKK a cor da pele se vê pelo saco! Genial! EU acho muita besteira registrar a raça no momento do nascimento, pela cor visual da pele. Tem que ser feito um estudo de ancestralidade, a cor da pessoa não é necessariamente indicativo de sua etnia.

    1. Não só pelo saco, mas faz parte…
      Nossa população é muito miscigenada. Seria uma besteira querer falar de raça como algo puro no nosso país.

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