Estorvo

No final de uma rua sem saída encontram-se, chegando para o almoço, Carlos e seus dois filhos, Soraia e Guilherme.

– Como foi na prova de português, Gui?

– Beleza. Depois que a Soraia me ensinou, ficou fácil.

– Só mostrei um jeito mais fácil de aprender. Você é esforçado, por isso foi bem. Conseguiu marcar suas férias, pai?

– Consegui.

– Marquei as minhas também. Será que podemos viajar?

– Não sei. Você sabe o quanto é difícil deixar a casa sozinha.

– Ah, pai. Todos meus amigos da escola viajam. Já faz três anos que temos que ficar aqui.

– Guilherme, você sabe que temos uma dificuldade. Filha, se você quiser viajar com seus amigos, tudo bem.

– Não sei. Vou pensar. Hum… Parece que a mãe fez bife acebolado.

– Que nariz bom, minha filha. E batata frita pra o teu irmão.

– Sempre mimando o queridinho…

– Não sei quem mima mais, eu ou você. Carlos, vem aqui na cozinha, por favor.

– Que foi?

– Tá muito difícil. As manias e exigências pioram a cada dia.

– O que aconteceu dessa vez?

– Não come qualquer coisa. Tem que almoçar todos os dias às 10 horas, quer sempre comer a mesma comida: arroz, feijão e linguiça frita. Não aguento mais esse cheiro de fritura pela casa.

– Não sei o que dizer, Sílvia.

– E quer arroz “novo” todos os dias.

– Vou falar com ele outra vez. Não sei se vai adiantar muito.

– E vocês têm sorte que o programa na televisão acaba ao meio-dia. Cada dia aumenta mais o volume. Nem ouvi o telefone tocando hoje. Sempre a mesma ladainha, o mesmo pastor gritando. Pensei que fosse por pouco tempo…

– Eu sei que é difícil pra você, que fica o dia todo e aguenta tudo sozinha.

– Três anos é tempo demais. Tem hora que eu… Deus me livre!

– Mas eu sou o caçula e o único filho com quem ele combina.

– E está cada dia mais gordo, mais forte. O médico na semana passada falou que ele tem saúde de ferro. Tá muito difícil. Vou acabar com a minha saúde desse jeito.

– Pai, mãe, vocês não vêm?

– Vamos comer. À noite continuamos.

– O que foi, está tudo bem com vocês dois? Algum problema?

– Não, filha. Nada novo. Vamos comer.

– Mãe, sabe que fui bem na prova de português?

– Parabéns, filho. Tem outra prova à tarde?

– Não. Tenho aula de artes e educação física.

– E você, Soraia, conseguiu resolver aquele problema no escritório?

– Ainda não, mas vamos resolver logo. O cliente é boa pessoa. Gui, passa o “resto” de batatas fritas. Nunca vi comer tanta batata assim.

– Batata faz crescer, tem amido, não sabia disso?

– Ai, mais essa agora…

– Carlos, minha irmã chamou para irmos até a casa dela na sexta-feira à noite. É aniversário dela, lembra?

– Lembro. A gente volta cedo, né? No sábado quero ir pescar de manhãzinha.

– Sim, a festa é só da família e… Que cheiro é esse? Não pode ser…

– Ah, não! De novo, não…

– Carlos, vem aqui ver. No banheiro do seu pai.

– Não! Toda essa sujeira de novo. E na hora do almoço!

– Ainda bem que foi agora. Assim todos vocês sentem um pouco como é minha vida nessa casa.

– Pai, já não falei pra sentar direito na privada? Pra não sentar de lado?

– Mas eu sentei.

– E essa calça, toda marrom! Esse cheiro insuportável. Por que não chama alguém quando quer ir ao banheiro?

– Não sei. Não quero atrapalhar. A Sílvia é muito ocupada.

– Eu prefiro parar o que estou fazendo, seu Mário. É melhor levar o senhor ao banheiro que limpar essa imundície. Olha Carlos, até a cama está suja. Minha Nossa Senhora!

– Pai, assim ninguém aguenta viver nessa casa.

– Não consigo segurar até a privada.

– Vamos, Carlos, vamos levar essa roupa de cama para o tanque. Pega o colchão também.

– Tem até urina no colchão. Pai, nem urina segura mais?

– Não sei, Carlos.

– Gui, leva o colchão pra fora.

– Quer ajuda, mãe?

– Sim. Pegue umas roupas limpas para seu avô.

– Vamos, pai. Vou te dar banho.

– Depois, guarda meu prato e do teu pai no forno. A gente termina de almoçar quando acabar de arrumar esse chiqueiro.

– Pai, o senhor não toma banho todos os dias, né? Esse ranço não junta de um dia pro outro. Nunca imaginei o senhor ficar tão porco assim.

– Ai, Carlos, não aperta minha costela.

– Não apertando, esfregando pra desencardir. Segura na barra de ferro. Que se o senhor cai, aí piora tudo mesmo.

– Pai, a roupa limpa do vô está na cadeira perto da televisão.

– Carlos, não deixa ela entrar aqui, não.

– Por quê? com vergonha de mostrar essa pelanca murcha?

– Ela é minha neta.

bom, ninguém vai entrar aqui. Pronto, se enxugue.

– Gui, pega outro colchão no quartinho e coloca na cama do seu avô.

– Vem, pai. Sem demora, tenho que voltar pro trabalho. Segura na cadeira. Mira no buraco da cueca.

– Calma Carlos, estou tonto.

– Segura no meu ombro. Olha o tamanho do buraco. Como não consegue acertar o pé nele? Isso, firma esse pé no chão e coloca o outro pé no outro buraco.

– Pronto, colchão novo no lugar.

– Gui, é você?

– Sim, vô, sou eu.

– Pensei que fosse sua irmã.

– Quer ajuda, pai?

– Não, já acabei. Vamos, senta na cama.

– Quero deitar.

– Então vai, tomba o corpo pra trás.

– Assim?

– É. Está cada vez mais duro. Relaxa o corpo. Se não relaxar fica mais difícil ainda. O senhor não ajuda… Quer quantos travesseiros?

– Um só.

– Quer uma coberta? Está com frio?

– Não. Gui, liga a televisão.

– Em que canal, vô?

– No da reza.

– Pronto.

– Aumenta, põe mais alto.

– Assim?

– Isso.

– Tchau, vô. Até mais tarde.

– Vamos Sílvia, vamos comer. Engolir a comida e voltar pra firma.

– Carlos, vou ter um troço qualquer dia.

– Vamos pensar em alguma coisa. À noite, quando eu voltar.

– Daqui a pouco, no meio da tarde, já tem que preparar suco e pão com requeijão, sempre. Às seis horas a sopa tem que estar pronta. Eu vivo em função dele. Três anos.

– Tenta comer agora e esquecer isso.

– Gui, Soraia, vocês já estão saindo?

– Daqui a pouco. Vamos esperar o pai.

– E essa televisão agora vai a tarde toda. Esse monte de gente rezando, gritando. Nem minha música consigo ouvir mais.

– É só o que ele assiste na televisão? Costumava ver futebol também…

– Nada mais, agora é só o culto. Ainda se Deus ouvisse e ajudasse essa casa.

– Preciso ir, querida. Meninos, vamos.

– Sorte de vocês, que podem ir.

– Tchau.

– Tchau, mãe.

“… e você irmão, irmã, que sofre, você que não vê esperança na sua vida, sabe o que o Senhor tem guardado, sabe o que o Senhor reservou para você. É só ter fé irmão e irmã, é só pedir, do fundo da sua alma. Ore, e nas suas orações peça como um servo de Cristo, que nosso Senhor vai te amparar. Nosso Senhor não vai te abandonar…”

– Não aguento mais essa televisão. Vou resolver isso agora.

– Jesus, me leva… por favor.

Enquanto os três, a quarteirões dali, tomam diferentes rumos.

2 thoughts on “Estorvo”

  1. Realidade dura mesmo. Não estamos preparamos para o envelhecimento, ver a limitação dos nossos pais surgindo, em comparação como o que eram antes, é muito confrontador. Minha mãe passa por isso, em parte, com os meus avós, pois não moram na mesma casa. Haja paciência e compreensão. Ter que se colocar em segundo plano, sem escolha, não é fácil.

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