Evolução da espécie

Em uma mata, tarde quente de Dezembro, dois macacos num galho se preparam para a sesta depois de encherem a barriga de formigas. A piscadela derradeira, aquela que os desligaria do mundo, é interrompida pela súbita visão de alguns humanos aproximando-se. Alertas novamente, procuram copa mais alta para espreitar.

– Você notou que os humanos têm aparecido bastante por esses lados?

– Sim.

– Em bandos de bicicletas, com essas coisas na cabeça e roupas esquisitas.

– Você não sabia?

– O quê?

– Agora é assim: andar de bicicleta com capacete, óculos, roupa apertada, sapatos de corrida…

– Sério?

– Seríssimo. Sabe o Manolo, cão meu amigo da fazenda lá de baixo?

– Sei.

– Disse que os donos dele sempre sabem o que está na última moda. E que eles são… como é mesmo… Ah, descolados. E que agora a moda é andar de bicicleta.

– Mas eles estão atrasados!

– Como assim?

– Ora? Você bem se lembra do nosso amigo humano, que há muitos anos passa por aqui com varas de pescar na bicicleta para ir ao córrego. Ele está bem mais moderno que esses aí…

– Deixa de ser bobo! Lerdo desse jeito, algum circo passa por aqui e te leva. Vai ver só: passar a vida tirando foto com crianças na arquibancada!

– Meu avô gostava disso! E dizia com orgulho que estava em monóculos pelo mundo todo.

– Não muda de assunto. Essas não são bicicletas, são “as” bicicletas: leves, resistentes, com adaptações nos pedais, sinalizadores…

– Chega! Já entendi. Para mim, andam do mesmo jeito.

– Claro que não! Deixa de ser atrasado!

– É só começar o verão que o Manolo vem com uma história nova sobre os donos dele.

– Gente evoluída é assim. Nós é que vamos ficar a vida toda enfiando gravetos nos formigueiros. Os humanos sempre surpreendem. Evoluem, como eles dizem.

– Sei. O nosso amigo pescador parece bem mais feliz que esses aí. Quase nem pedala, deixa a magrela descer no embalo.

– Mas não é isso que importa. Tem uma questão de técnica, de biomecânica, de aerodinâmica…

– Hei, hei! Endoidou? Essas coisas servem para pular de um galho no outro! Andar de bicicleta é só empurrar com um pé, depois com outro. Só.

– Meu amigo, você nunca vai deixar de ser um macaco. A evolução deve ser sua pior inimiga! Tem que pensar fora da casinha!

– Que casinha?

– O Manolo me contou que é assim que os donos falam. Ele disse que depois que começou a deitar fora da casinha dele para pensar na vida viu tudo mais claro.

– Nós não temos casa. Com a gente não vai funcionar. E você dá muita atenção a esse Manolo. No ano passado era corrida. Aquele monte de gente passando por aqui, em bando, correndo. No ano anterior não se via ninguém.

– Claro que não! O Manolo falou que nessa época os donos estavam fazendo curso de mergulho. Viajavam todo final de semana para umas cidades com nomes diferentes.

– Mas para aprender a nadar tem o córrego aqui no fundo!

– Eu disse mergulhar! Com roupa, óculos e um monte de outras coisas. O Manolinho até falou que eles usam pé de pato e um outro negócio de nome esquisito… esnór… esnór… alguma coisa.

– Minha nossa! Pensei que ser humano fosse mais fácil. É muita coisa, parece sofrimento.

– Que sofrimento, meu amigo? Olha para aquela macaca na outra árvore.

– O que tem ela? Está tirando os piolhos dos filhos.

– Pois é! Você não entendeu nada. Olha que vida besta essa de macaco: ficar tirando piolho!

– Eles parecem tão felizes. Aquele galho é tão confortável, já empoleirei nele várias vezes!

– Conforto? Você nem faz ideia do que seja isso! Eu também não sabia, mas o Manolo me explicou. Ele disse que um dia o caseiro da fazenda, um senhor que trabalha lá desde que nasceu…

– Desde que nasceu?

– É modo de falar! Escuta: desde que ficou grandinho e conseguiu erguer um enxada, ele trabalha para a família. Um dia perguntou aos donos do meu amigo cão: “por que vocês gastam dinheiro com essas coisas?” Eles responderam: “Isso aqui, seu Joca, é conforto. A gente trabalha tanto, merece o que a vida tem de bom”.

– E andar nessas roupas apertadas é bom? Prefiro ficar com tudo livre, tomando uma fresca.

– Você só pensa como um macaco mesmo! Tem um monte de coisas que você nem faz ideia.

– Mais?

– Sim. O Manolo disse que outro dia, durante o jantar eles estavam conversando sobre carros. Sabia que tem que trocar todo ano?

– Por quê?

– Conforto, meu amigo símio, conforto.

– E eles estavam bebendo aquele negócio escuro?

– Vinho, você quer dizer? Claro que sim. Você precisa saber como eles entendem de vinho.

– Como assim? Pensei que era colocar na boca e engolir!

– É, meu velho, não tem jeito mesmo. Quem nasceu para ser símio besta, será sempre símio besta.

– Então explica aí, ó sabichão!

– Tem cursos sobre vinhos! Sabia que o vinho é feito de uvas fermentadas?

– Não sabia.

– Então, há diversas qualidades de uvas, temperaturas, barris… É uma ciência e uma arte.

– Minha nossa… Os humanos devem viver de cabeça cheia. Coitados…

– Que o quê? Eu invejo a vida deles. Só vou dizer mais uma coisa: quando eles estão muito cansados de trabalhar, assim quase se acabando, é hora de viajar.

– Bom, com isso eu concordo. Visitar os amigos, dar um passeio. Estou gostando.

– Deixa de ser bobo. O Manolinho disse que a viagem tem que ser para um lugar que eles chamam de Europa.

– Onde fica isso?

– Não sei. Só sei que vai de avião.

– Deus me livre!

– Parece que o ideal é ir duas vezes por ano.

– Não imaginava que ser humano fosse tão esquisito assim.

– Você precisa entender melhor o significado de conforto, amigo peludo.

– Chega desse papo. Vamos voltar para nosso galho mais baixo. Eles já estão longe.

– Deixa eu acabar de contar essa parte, depois me calo. Nesse lugar chamado Europa tem uma cidade que deve ser visitada pelo menos uma vez ao ano. Quero dizer, uma das duas viagens tem que ser para esse lugar.

– Por quê?

– O Manolo também não sabe. Ele não ouviu muito bem essa parte da conversa. Foi um azar dos diabos: deram uma tigela de sopa pra ele na hora e ele estava tão esfomeado que as lambidas fizeram tanto barulho a ponto de atrapalhar a audição. O que ele conseguiu ouvir foi que nessa cidade tem um rio onde é obrigatório sentar na margem e tomar vinho e uma rua onde as pessoas compram relógio e bolsa todas as vezes.

– Todas?

– Sim, todas. Ele também falou uma coisa que não entendi. Os donos dele dizem que se for até essa cidade e não fizer essas coisas é como se não tivesse ido. Aí pirou minha cabecinha: como que se vai a um lugar e é como se não tivesse ido?

– A minha, então… tô zorozinho…

– Tenho matutado sobre isso todas as noites, sabe? Deve ser a última fase da evolução.

– Você fala sério quando diz que quer esse negócio de “evolução”?

– Claro que sim!

– Tem muita obrigação, não tem não?

– Amigo piolhento, é com as obrigações que se chega ao conforto. Esse é o segredo!

– Sei não. Tá me dando um sono… Prefiro uma música que meus avós cantavam para mim:

“Que bicho é esse?

Bicho novo, moço

De onde ele vem?

Vem de longe moço, muito longe

O que ele quer?

Sei não, nem o bicho também

Ele é cheio de nhenhenhém

Nhenhenhém

Nhenhenhém…”

4 thoughts on “Evolução da espécie”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *