Mesa de bar

Bate com o dedo e observa o movimento da pedra de gelo no copo de uísque. A bebida alivia a cabeça, mas a sensação de derrota continua pesando na boca do estômago. O corpo curvado sobre a mesa – mais um toque no gelo, que já não se move tanto agora.

Alguém grita na rua e invade o bar. Ouve as vozes bem ao fundo, sem compreender uma palavra sequer. Desatento como está, prefere a música de fundo, um bolero há muito tocado entre as ideias, de permeio. O gelo ficara inerte.

– Garçom… Esse gelo morreu no fundo do copo.

Uma pedra de gelo tem quantas vidas a sede permite. Essa tem vida pela terceira vez. Pernas relaxadas, suspirando recosta-se na cadeira. O chão se movimenta lentamente, de um lado a outro. Tenta fixar os olhos no gelo, tem dificuldade.

Lembra-se de quem é e logo firma o corpo novamente – “tome prumo, sujeito”. A vergonha logo vem, seguida pela ira. O bolero toca mais alto. Pega o copo com força e toma toda a bebida de uma vez, até o gelo vir tocar sua boca. De olhos fechados, ainda mais raiva. Ao abri-los, vê o gelo morto no fundo do copo. Um aperto no peito toma-o de assalto, uma vontade incontrolável de alterar o rumo de sua vida – “essa noite”. Intuitivamente, sabe que o fará como fazem os perdedores. Quem se importa? – cabeça leve demais para pensar em vitórias e derrotas.

Abandonará agora seu companheiro. Levanta-se, acena para o garçom e deixa sobre a mesa o dinheiro que julga necessário. Como alguém que encontrou novo amigo, quer preservá-lo – vai até o balcão, chama o atendente:

– Cuide bem do meu amigo aqui do fundo do copo. Ele passou por muitas aventuras em pouco tempo, deve estar cansado…

Vira-se e se dirige à porta, esforçando-se para não olhar para trás, enquanto é seguido pelos olhos do atendente, mais por força do hábito ou até por algum escárnio, que por preocupação. Demora alguns instantes, afinal vence a porta, passa ao lado de fora e vira um vulto, um espectro transitando pela rua.

Não saberemos ao certo, mas pode ser que esse atendente tenha alguma compaixão, pois só após o homem desaparecer na rua é que aquele atira o gelo ao fundo da pia. Volta-se para o balcão e atende duas ou três pessoas, todas sem companhia, pedindo solitariamente.

Olha para os lados e percebe, pela primeira vez em meses, que está só. Que mais: necessidade de falar com alguém, um aperto de mão ou um tapa nas costas? Pode ser que ele sonhe em abandonar esse balcão, realizar um sonho de sua mãe, formando-se contador… Sim, dono de um escritório contábil, como ela cedo lhe dissera ser um bom rumo na vida. Ele tem mãe? Talvez ela há muito tenha morrido, de doença que mal sabe o nome, obrigando-o a morar com a avó surda e ranzinza que dorme no sofá e só vai para cama quando ele chega em casa. Isso importa?

E também, se nós o ouvíssemos, poderíamos ajudá-lo com uma ideia nova, um “você é jovem, tem a vida toda pela frente”, ou um “não desista de seus sonhos”. Seus olhos tornam-se vivos. Fita uma a uma das pessoas do bar escuro, isoladas em seus cantos.

Presta atenção a esse moço, olha-o bem. Ele não tem rosto, não é mesmo? Ou tem o rosto de todos os atendentes que existiram, existem e existirão. Vê como olha ao redor de novo, sozinho do seu lado do mundo e corre para a pia: tristeza, o gelo se fora.

 

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