Metalinguagem e lugares-comuns

Como se deve iniciar a escrita que merece ser lida, frente a um universo onde, dizem, tudo já fora escrito?

Lançar mão de alguns parágrafos sobre o ato de escrever é, languidamente, aceitar que sim, tudo já deve mesmo ter sido escrito, pois narrar sobre o ato de narrar é quase tão velho quanto escrever uma história.

Pegando emprestada uma ideia de Northrop Frye, os trabalhos literários não são produzidos de forma isolada, mas sequencial, como partes contíguas de um mundo no qual o leitor é envolto. Ou seja, ninguém inicia sua obra do nada, reinventando a literatura. E esse é um mundo vasto, há muito em construção, com cada peça cuidadosamente moldada e encaixada.

Vislumbrar nova peça tem sido matéria de descrença. As possibilidades de evolução da arte escrita são limitadas. Quase sempre as peças que se apresentam são reformulações matizadas das anteriores. A brevidade da vida da qual escreveu Sêneca – vitam brevem esse, longam artem – fora antes aludida por famoso médico grego e depois pelo maior poeta da língua portuguesa, remodelada em um verso derradeiro, “para tão longo amor tão curta a vida”. Estamos fadados a ler os mesmos enredos ambientados em épocas distintas, desenvolvidos com personagens distintos.

Consequência direta das duas características desse mundo, completude e vastidão, é que há muito a ser lido. E por que alguém, escritor ou leitor, gastaria tempo com arremedos (a arte é longa, a vida breve)? As Musas estão fatigadas de hexâmetros dactílicos. Colocar um filósofo nas nuvens ou matar os parentais deixou de demandar reação do coro. Enfiar, “matrioscamente”, histórias dentro de histórias, pouco ajudaria. E, para desespero final, há obituários do romance por toda parte.

Há tanta leitura – merecidamente – obrigatória que, respondendo à pergunta inicial, é preciso dedicação e esmero com as palavras antes de tomar ao leitor parcela do tempo de sua curta vida. Cioso disso, nada mais posso pedir senão que tenham paciência com minhas palavras.

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