O bosque de cada um

Dentro da minha cidade tem um bosque. Por muitos anos, nos dias em que era criança, nesse bosque houve um zoológico, uma unidade de educação pré-escolar, uma pista para andar de bicicleta, uma pista para corridas, uma quadra de esportes e uma piscina. Além disso, havia muitas árvores, enormes e cheias de pequenos macacos e muitos pássaros, debaixo das quais os avôs passavam boa parte da tarde jogando bocha, dominó ou cartas. Dia dos mais felizes foi quando, aos 11 anos, formei dupla com meu avô e jogamos bisca por mais de hora, sem que outra dupla nos derrotasse.

Passar pelos portões do bosque significava drástica mudança de percepção: o cheiro próprio das árvores, do húmus e da sombra, a redução da luminosidade e o predomínio do verde e, não menos, o efeito de concha acústica. Era impossível deixar de notar a passagem para outro mundo. As crianças fazem muito isso, criam mundos a parte e dentro de mundos o tempo todo, a cada tarde, a cada nova brincadeira.

Anos depois, adulto e interessado em criar mundos, li o livro de conferências Seis passeios pelos bosques da ficção, de Umberto Eco. Na primeira delas o autor alude a uma metáfora então desconhecida para mim, atribuindo à palavra “bosque” o sentido de qualquer texto narrativo ficcional. Foi quando consegui entender que além da percepção, o bosque da minha infância causava em mim outra alteração, mais profunda e, hoje posso dizer, permanente – permitiu, por muitos anos, que criasse um mundo onde fora autor, narrador e personagem.

Não sem paralelo, nos finais de semana muitos tentam migrar do mundo em que vivemos para refugiarem-se em chácaras, casas de campo, praias, ou mesmo em suas próprias casas, quando decidem “colocar as séries televisivas em dia” ou ler por prazer.

Expondo a metáfora que há nisso, busca-se mudança de linguagem, de significado para as palavras e para os atos. Surge a oportunidade de novos papeis – cada um pode livremente cambiar de narrador a personagem, de personagem a narrador e de cada um desses a autor, por que não? É como entrar no bosque da minha cidade. É o bosque de cada um.

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