O cão e o mendigo

No semáforo perto da minha casa, como em centenas na cidade, há um mendicante. Nas últimas semanas, tem comparecido ao local de sua labuta com pequeno cão a tiracolo. Perguntei se ele tinha arrumado um amigo. Respondeu que não, já era companheiro dele fazia muito tempo, mas que levando o bicho as esmolas aumentam.

Nada novo. Lima Barreto, em crônica datada de 1911, relatou o artifício bastante comum aos mendigos de levar consigo um animal. Levar crianças também tem esse efeito.

Fiquei imaginando: o que faz alguém dar ou não esmolas? As palavras do meu conhecido deixam claro que neste ato há uma ponderação e que desta depende o sucesso dele.

Palpites? Tenho dois: culpa e a obrigação de parecermos bons.

É provável que o apelo do título à imagem do sofrimento dos desvalidos, presente no imaginário coletivo, tenha feito você vir para essa crônica. Não devemos ignorar a força das convenções. Boas pessoas cumprem o papel social de assistir, mostram que têm consciência do sofrimento alheio. Se alguém que tem tão pouco encontra meios para cuidar de um animal, nós que poderíamos fazê-lo, muitas vezes o negligenciamos. Sim, um mendigo que se importa com animais merece ser ajudado. É quase como seguir o enredo de uma propaganda da nossa bondade calculada.

Outro dia virou notícia a agressão de guardas civis contra um morador de rua. A repercussão levou ao desfecho comum nessas situações – uma tentativa de reparo para acalmar a indignação geral. O homem e sua companheira receberam emprego, o mal-estar desapareceu e todos podemos voltar para ilusão de normalidade e justiça com que costumamos acreditar no mundo.

A bondade calculada a que me referi já era evidente há mais de 100 anos. Lima, no mesmo texto, denuncia a prisão de um mendigo cego flagrado com uma pequena fortuna em dinheiro, fruto de seu expediente. As reservas monetárias do mendigo causaram tamanha indignação que alguns propuseram o confisco. O que cabe aos pedintes depende do que a sociedade entende como adequado à mendicância, nem um centavo a mais. O cálculo degenera em controle sádico quando, no momento de esmolar, entra em questão o destino que será dado àquele mísero dinheiro. Se em desacordo com o desejo do esmoler, nada feito: há sempre a possibilidade do sustento de um vício. Sustentar vícios, nunca!

Entendo que não se trata somente da relação entre um desvalido e um ditoso. Há nuances. Estamos falando do “homem do saco” para quem os pais ameaçam entregar os filhos desobedientes, que é a mesma figura que incute culpa nas crianças por não ter o que comer enquanto elas recusam a refeição. É provável que no tempo de Lima Barreto fosse assim também. Mas nossos dias sofisticaram o papel dos miseráveis, transformando-os em meio para um “choque de realidade”, uma aula prática sobre a iniquidade do mundo.

Escrever sobre mendigos é também tomar proveito da situação deles e da imagem a eles associada.

Sou desconfiado da bondade humana que precisa de propaganda ou que serve de exemplo. Se acredito na bondade genuína? Por certo que sim, mas pela calamidade vista em nossas ruas cotidianamente, aquela não é o interstício de nossa sociedade, e, sim, surge como lampejos.

Se ao final dessas linhas, leitor, seu principal sentimento é o de culpa, esse texto não cumpriu sua missão. Miseravelmente.