O namorado da “rainha”

“Namorado de Xuxa será avô pela primeira vez”. Esse foi o título de uma notícia que li há uma semana ou pouco mais. Foi dada na versão digital de um grande jornal de São Paulo e replicada em inúmeros sites. Logo pensei: “nossa, a Xuxa ainda existe! Nem me lembrava mais dela.” Busquei na memória a imagem de alguém de minissaia dublando músicas e dançando ao lado de pessoas fantasiadas de muriçoca e tartaruga e depois indo embora numa nave espacial de plástico. Era a “rainha dos baixinhos”. Tenho nada a favor ou contra a Xuxa, para mim ela tem a relevância de ter servido como mote para falar de algo que me incomoda, nada mais.

E o incômodo é muito mais com a notícia que com a personagem em si. O que leva os editores de um jornal a acreditar que alguém quer saber de fofoca? Pois essa “notícia” não passa disso. É preciso muita habilidade digital para escapar de uma enxurrada de notícias irrelevantes: elas estão na página inicial dos nossos navegadores, na página de saída de nossas contas de e-mails e na forma de propaganda em quase todos os sites que gostamos de ler. Iguais a essa notícia existem centenas diariamente. Não canso de me perguntar: por que diabos as pessoas deixariam de empregar o tempo (a coisa mais importante de que dispomos) consigo ou com as pessoas relevantes em suas vidas para saber da vida desse tipo de gente?

Essa pergunta nos coloca diante de situação semelhante àquela da pergunta do biscoito: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?” A irrelevância dos assuntos tratados nos jornais e sites é decorrência do baixo nível cultural da audiência (se sim, então a escolha dos assuntos é apropriada) ou esse nível cultural assim está em decorrência de décadas de bombardeio com irrelevâncias? É bem provável que ambos.

Nunca vi levantamento sobre isso, mas acredito que exista relação direta entre o desempenho escolar sofrível de nossos alunos e a proliferação de personagens sociais irrelevantes e suas histórias. Um dos motivos para crer nisso é que pessoas com um mínimo de capacidade de interpretação de textos – algo que se adquire na escola e em casa, com anos de estudo – se negariam a consumir tanta porcaria o tempo todo. Uma ressalva: desconheço pessoa imune à tentação de ouvir uma história sobre a vida de alguém. Os mais resistentes a essa ideia podem argumentar: “mas eu me interesso pela vida de pessoas ilustres, ou importantes em alguma área do conhecimento, ou que realizaram grandes feitos…” Entendo, mas continua sendo curiosidade pela vida de alguém, certo? E essa curiosidade muitas vezes evolui para empatia e, daí, para a imitação. Reforçando a importância da imitação e da emulação (gregos e latinos nos legaram isso), deveríamos ter zelo pelas figuras que expomos às crianças todos os dias. Refiro-me às crianças por ser a infância um período onde a reversão de alguns comportamentos tem maior chance de acontecer. Mas o zelo também seria útil para qualquer faixa etária.

Há também uma relação entre a incapacidade de interpretação de textos e a eleição de ídolos como atores, cantores e jogadores de futebol: são pessoas rasas, com características banais. E os ídolos têm a capacidade de servir de modelos, despertam como ninguém a imitatio e aemulatio. Sabe aquela velha história de dar bons exemplos? Pois é, trata-se disso.

Gosto da sensação de pequenez quando fico diante de uma grande realização do espírito, de um ato de coragem ou abnegação. Pena que muitos sintam-se assim frente à estultícia.

6 thoughts on “O namorado da “rainha””

  1. De modo “lite” você abordou um tema muito relevante apesar de tratar de irrelevâncias. Essa questão pesa muito sobre o nosso povo, embora não seja de nossa exclusividade. A maioria das pessoas aqui e pelo mundo afora sofrem dessa mesma “deficiência?”. Um dia isso há de se acabar, porém vai demorar um bom tempo.

    1. Não quis colocar sobre outros países para não alongar o texto. Acredito que há uma “tendência” global pela globalização da estupidez – a quem isso interessa?
      Quando morei fora, vi isso acontecer também, em menor grau. Tenho, realmente, a sensação de que quanto menos educação (não digo escola, mas educação) mais fácil de ser cooptado pela estupidez.
      O problema maior é que não vejo um movimento contrário para que isso um dia acabe.

  2. A propósito você se lembra que hoje é aniversário da mote trágica do Presidente Vargas? Isso é relevante ou irrelevante ?

    1. Não me lembrava (na verdade, nunca soube a dia, somente o mês da morte). Acho que o aniversário é irrelevante, as circunstâncias e o significado da morte trágica são relevantes.
      O que o senhor acha?

  3. Eu acho que esse interesse sem fim que as pessoas têm pela vida dos famosos parte do mesmo princípio do stalkear pessoas que conhecemos nas redes sociais por exemplo. O ser humano é curioso, gosta de saber como e porquê, gosta de encontrar motivos.
    Eu não vejo isso como problema central mas concordo quando tu coloca que essas notícias estão muito mais jogadas na nossa cara do que as notícias com real relevância. E é isso que tem que ser mudado.

    Beijos.

    BLOG COISA E TAL

    1. Oi, Fêh.

      Concordo. Também não vejo problema e acho saudável o interesse pela vida dos outros, pois estamos sempre imitando antes de começar a criar de forma original. Do contrário, teríamos de iniciar tudo do zero.
      Meu incômodo é sobre as pessoas que têm servido de modelo para as imitações. E as mídias poderiam ajudar oferecendo modelos menos superficiais, mas fazem o contrário.

      Beijos.

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