O torrone

Tinha sete anos, estava na segunda série do ensino fundamental, acordei meio indisposto e com pouco apetite. Uma moleza sem tamanho me deixou a manhã inteira no sofá. Estávamos no verão, e no meio daquela tarde, comecei a sentir frio. Era febre. Foi este o sinal de alarme… “Vamos já para o médico”. Fomos.

Conhecia o doutor há alguns anos. Nossos encontros anteriores tinham sido muitos… “Está com a garganta inflamada… É um estafilococo”. Como eu tinha raiva desse tal estafilococo. Bicho mais atrevido, não passava um ano sequer sem umas duas visitas suas. Mas daquela vez não era o estafilococo.

Deitei na mesa de exames. Aquele senhor careca, com óculos e bigode grande e branco, puxou para baixo minhas pálpebras, olhou bem no fundo da minha boca, auscultou meu peito… Até aí nada de mais, pelo menos para mim. Foi descendo a mão e palpou minha barriga… Uma dor forte no lado direito e vontade de vomitar. “Já fez xixi hoje? De que cor estava?” Era verdade, minha urina estava mais escura que o normal. “Mãe, ele está com hepatite. Pode ver os olhos amarelados, a urina escura, a febre e a dor no abdome. O fígado cresceu e está amolecido”. O que significava “fígado amolecido”? E “patite”?

No caminho pra casa fui pensando naquelas palavras e em outras que o doutor dissera. Chegando em casa, tudo foi mudado. Garfos, colheres, facas, copos e pratos separados, só para mim e dentro do meu quarto… “Mãe, o que é patite?” “O quê? É hepatite, menino… É quando o fígado cresce e fica mole como uma gelatina”. “Ah… E é por isso que minha barriga dói?” “É, é por isso mesmo”.

Àquela época, minha irmã tinha dois anos e o dia dela resumia-se em poucas coisas, entre elas ficar quase o tempo todo comigo, perguntando, cutucando, pedindo atenção. Foi quem mais sofreu, sentada no chão do corredor e chorando, impedida de entrar no meu quarto por uma das poltronas da sala. Por várias vezes foi pega pelos braços e pernas já quase caindo para o lado de dentro – como são intrépidos os irmãos mais novos!

Sobraram recomendações dos vizinhos, dos avós e de todos mais os populares sempre prontos a um palpite: “Pra acabar com a “tirícia”, tem que tomar banho de picão todos os dias” – não sei onde arrumaram essa ideia maluca, mas me lembro muito bem de só ter ficado ainda mais amarelado com os tais banhos.

Um grande martírio foi não ir pra escola – nada me deixava mais feliz. Do quarto escutava a criançada indo para aula e depois voltando, no final da tarde. Alguns até perguntavam por mim, lá na calçada, minha mãe nem os deixava entrar. Mas, como nem tudo nessa vida pode ser completamente ruim, principalmente para uma criança, havia os doces. Ah… os doces. Sim, os doces! Eles foram a grande sensação da “patite”.

O último a saber da minha situação foi meu pai. Chegou no final da tarde e logo notou, em um canto do quarto, meus olhos fundos e amarelados, meu rosto abatido como o de um prisioneiro. Sentiu uma mãozinha puxando sua calça… “Não, filha, não pode entrar no quarto do seu irmão”. Saiu, voltou alguns minutos depois com um monte de doces: balas, geleia, chocolates (um deles eu nunca tinha comido antes, era dos caros) e um desconhecido, um tal de torrone. Não dei muita atenção para aquele doce retangular, branquinho e com amendoim no meio. Deixei-o por último.

O jantar não tardou: arroz empapado e sem sal, e bife de fígado malpassado. Que tristeza… Eu chorava dentro do quarto e via a cabecinha branca da minha irmã se esforçando para olhar sobre a poltrona. Ela chorava junto. Os irmãos mais novos são compadecidos. Comi forçadamente toda aquela comida, que ia até o estômago e voltava à garganta. Não cheguei a vomitar, foi por pouco.

Na minha escrivaninha havia ainda o desprezado torrone. Qual seria o gosto daquele doce, hein? Para deixar de sentir o gosto da comida, faria qualquer coisa, até mesmo comer um doce de aparência tão sem graça. Foi então que a história natural da “patite” começou a mudar. Que gosto era aquele? Como eu, com sete anos de idade, uma barriga enorme e um apetite voraz, por tantos anos fiquei longe daquela guloseima? Óbvio que não me perguntei com essas palavras, mas certamente me fiz essa pergunta. “Pai, onde você comprou esse doce?” “Qual?” “Esse tal de torrone?” “Você gostou? Foi no bar da dona Ica. Sabe aquele bar da esquina da empresa de ônibus? Foi lá.”

A partir de então, todos os dias ele me trazia doces, digo, torrones e alguns outros docinhos perdidos no meio do saquinho. Esses últimos iam todos pra minha irmã. Como fui bondoso naqueles dias! Acho que nunca reparti tantos doces com ela – balas, chocolates, doces em forma de coração… Ela era uma felicidade só. “E esse doce branco, é gostoso?” “Qual, esse aqui? Eu não gosto, não.” “É feio, né?” “É, é feio e ruim.” Pronto, comi todos os torrones e fiz minha irmã gostar ainda mais de mim.

Duas semanas passaram rápido. Teve até um fato engraçado, envolvendo, mais uma vez, minha irmã. Minhas fezes haviam ficado esbranquiçadas, o que um professor na faculdade diria “feito massa de vidraceiro”. A menina, muito curiosa, me acompanhou até o banheiro. Justiça seja feita, esse era o único momento em que ela podia chegar mais perto de mim. Terminado o serviço, ou como meu avô dizia, a “obra”, fiquei de pé e, antes de me livrar da “obra”, lá estava ela, olhando no fundo do vaso. Foi olhar e dar um pulo para trás, abrir a porta e sair correndo para os fundos da casa… “Mãe, meu irmão fez um cocô-fantasma!”

Depois do “cocô-fantasma” tudo transcorreu bem, sem sustos ou assombrações. Como na maioria dos casos do que eu viria a saber chamava-se hepatite A, recuperei-me completamente. Após alguns meses nos mudamos daquele bairro. Voltei algumas vezes para rever meus colegas e, é claro, comprar torrone no bar da dona Ica. Infelizmente, após alguns anos o bar foi vendido e o novo dono preferia vender coisas salgadas e amargas. Em vão, tenho procurado daquele torrone em bares, mercearias e supermercados. Sem querer acreditar, tenho a impressão de que nunca mais voltarei a comê-lo.

2 thoughts on “O torrone”

  1. A propósito, a coitadinha da sua irmã, chegou a conhecer e saborear o torrone, ou você fez ela acreditar, que o doce era mesmo ruim?? rsrsrsrsrs

    1. Acreditou por um tempo, depois deixei ela provar, mas nem gostou tanto…
      Todos os torrones daquela casa continuam sendo meus!!

Deixe um comentário