One beer or three?

Se você é inglês, tem 40 anos ou mais e viveu em determinado subúrbio londrino, entendeu a pergunta. Aliás, entendeu que é uma brincadeira convidando para ir a um pub e tomar cerveja. Quem não faz parte do restrito grupo tem dificuldade para entender a piada, se é que realmente entenderá.

Ouvi-a de um cidadão britânico com as características acima e sequer suspeitei tratar-se de um chiste ou algo do tipo. Depois de algumas tentativas, desistiu de me fazer entender o que para ele era claro como cristal e nebuloso para mim. Diferenças de cultura e sociedade podem ser intransponíveis, sensação comum quando se está em outro país ou quando se recebem estrangeiros.

O insólito vem agora. A pergunta surgiu, melhor, soçobrou em minha mente há alguns dias, enquanto assistia ao noticiário sobre a situação política brasileira. Por quê, dos escombros da vida pública nacional, veio essa frase nebulosa? Demorei para entender, mas penso que consegui, ao menos em parte.

O noticiário e, consequência dele, as discussões presenciais e em redes sociais mostram que não temos a mínima ideia sobre o que falamos. As certezas nascem e morrem no mesmo dia, e o que sobra quase sempre é uma disputa de versões, sugerindo que o brasileiro é constantemente alheio à condução da sociedade em que vive – recebe as informações que lhe são permitidas receber e da forma que convém a quem as oferece.

Para aqueles que não raciocinam sob o véu de ideologia, a busca da verdade dos fatos é tarefa inglória. A cada dia torna-se mais difícil acreditar nos próceres do poder público, qualquer que seja o nível. Começa a dar medo tomar posição ou dar opinião sobre esse ou aquele fato, essa ou aquela pessoa, sob o risco de receber a pecha de ingênuo ou conivente com a enganação. Ter medo de expor as ideias porque não se tem certeza acerca do que elas se baseiam é estar na mesma situação embaraçosa do estrangeiro que ouve uma frase e não esboça reação, fica sério diante de uma anedota ou gargalha em momento melindroso. Ocorreu-me agora a estranheza e a anergia que em mim suscitara O estrangeiro, de Albert Camus, uma completa incapacidade de controle.

Ser brasileiro nos dias que vivemos é não saber por onde começar um raciocínio pela total falta de confiança nos argumentos. Além de não encontrarmos um caminho claro, temos feito uso de uma bússola desmagnetizada.

Colunistas da mídia impressa e digital repetem ad nauseam o mantra “Brasil, país da piada pronta”. É uma “tirada” inteligente, mas anacrônica. As piadas no Brasil de hoje não têm qualquer graça, e são dificílimas de entender.

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