Pais nunca dormem tranquilo

Que linda sentada na grama, o cabelo todo bagunçado, brincando de contar os dedos.

Olha para mim e sorri – lábios finos, bochechas pálidas. Está precisando de um pouco de sol, minha filha.

“Papai, me empurra na bicicleta?”

Claro que sim. Ergue os braços – que a pegue no colo. Está mais leve.

Roupinha largas, nunca vi. Quando a Bárbara comprou esse conjuntinho verde claro e sem mangas? Não combina com as duas.

“Mais depressa, papai!”

Por que ela está em casa hoje, não na escolinha? E Bárbara, por que está dormindo no meio da tarde? Verdade, tirei a tarde para ir ao parque com as duas.

A fita no pulso esquerdo: Isadora Alves; Mãe: Bárbara C. Alves. Tudo pronto para o parque, Bárbara dormindo.

“Chega, papai. Me pega no colo.”

Mãozinhas para cima. Os dedos roxos – brincou com canetinhas outra vez? E outras manchas roxas nos braços, até uma na testa. Sim, brincou de se pintar. Ela já tinha passado essa fase.

Com quem Bárbara está falando no telefone?

“Marcelo… Marcelo, acorda”.

– Oi. Cadê a Isa? Ela estava no meu colo.

– Não, amor. Ela não está aqui.

Não mesmo. É madrugada. A caminha vazia.

– Ligaram do hospital.

– Está tudo bem com a Isa? O que eles disseram?

– Com a Isa? Sei lá, deve estar no quinto sono.

– E os machucados? E a fraqueza?

– Hei! Acorda! Acorda! Minha bisavó piorou, precisou internar. A Isa está na casa da Bia.

– Jura que ela está bem? Vi a caminha vazia, quase tive um troço…

– Claro. Hoje é sexta, dia de dormir com as amiguinhas.

– Nossa… que alívio.

8 thoughts on “Pais nunca dormem tranquilo”

    1. Que bom que você gostou.
      Sim, ter filho faz o mundo ser diferente, e cada um tornar-se diferente. Dá até para entender o excesso de zelo dos pais quando éramos crianças.
      Boa semana.

  1. Essa semana eu disse a um amigo que os primeiros 40 anos de maternidade são os mais difíceis. rs
    E olha que nem sou mãe.
    Mas imagino o frio na barriga que se tem, a paz que não se tem, mas a alegria que sempre transborda.
    Gostei do texto! Parabéns pela escrita!

    1. Oi, Eliziane.

      Também não sou pai. Vejo o sofrimento dos que são, algumas vezes motivado, outras irracional.
      Mas não é difícil de entender o drama, se imaginarmos que filhos devem, mesmo, sem o bem mais precioso.
      Obrigado pelos elogios.
      Abraço.

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