Papo no café

Alguns dias atrás, numa pausa ligeira para um café, conversava com um amigo sobre trivialidades. A conversa ia leve, até o ponto em que comentei, sem intenção de que houvesse reparo, às vezes sentir aguda vontade de ficar só. Seguiu-se um espanto do meu interlocutor. Resolvi prosseguir no assunto, dizendo ser essencial ter um tempo para colocar as ideias em ordem, planejar passos futuros, ou tão somente percorrer a memória. Ouvi um “Deus me livre! Detesto ficar sozinho, tenho que estar em contato com alguém, nem que seja pelo telefone”. Depois de revelação tão enfática, parei por ali. E passei a pensar mais sobre o tema.

Uma conclusão evidente é: a necessidade de ficar só varia de um indivíduo para outro. Prossigo com uma pergunta – como definimos o estar só? Estar só é estar na ausência de outro humano, ou na ausência de qualquer ser vivo? Ou estar só também inclui não ter contato com qualquer ser inanimado, como livros, rádio, televisão, telefones e computadores? Sim, porque esses objetos todos são produções humanas e representam contato com seus criadores – indireto, é verdade, mas inegável. Será que “só” significa a solidão de um chão duro, deitado com os olhos fechados no mais completo silêncio?

Outro dia ouvi, de outra pessoa, em tom quase de reprimenda: “se você prefere ficar enclausurado, sem contato com os outros, é opção sua”. Evidente que é opção minha. Solidão e solitude não devem ser confundidos.  Ficar sozinho tem diversas nuances. Talvez a expressão que disse para meu amigo no café tenha sido equivocada. Penso ter tido vontade de dizer: “sinto enorme vontade de estar com alguns seres, longe de outros; às vezes tenho vontade de ficar comigo”. Ninguém poderá negar que a “conectividade” atual tornou quase impossível ficarmos sós, o que é alívio para uns, tortura para outros. Um elemento que pode clarear a discussão é o seguinte: as interações dependem da vontade, guiada pelos mais diversos interesses e estes podem variar ao longo da vida, como também varia a necessidade de nenhuma interação. Desde já, vamos refazer essa ideia: a menos que você esteja em coma (mesmo assim ainda haveria controvérsia), não é possível parar de interagir com os outros, pois os outros todos que conhecemos, animados ou não, os trazemos na mente. Mais que isso: o que somos hoje depende em grande parte do que internalizamos desses “outros”.

Nós, humanos, somos totalmente dependentes ao nascimento e morreríamos em poucos dias se não alimentados. Essa interação corporal direta, também afetiva na maioria das vezes, permite vivermos, crescermos e continuarmos a interagir de forma obrigatória por pelo menos parte de nossas vidas.

Em sentido inverso, podemos indagar o porquê de o ser humano não se sentir completo em si, no seu pensamento, no seu modo único de apreender o mundo. A pergunta parece trazer consigo uma resposta: um modo único de assimilar as coisas é insuficiente, é titubeante… É tedioso. Por que não interagir se a necessidade de contraponto é peremptória? Esse contraponto nada mais é que um meio de ver-se a partir do exterior, uma oportunidade de outras veredas aos próprios porquês. E não podemos ficar restritos à interação física, mas estar atentos à necessidade de interação entre os modos de expressão de cada um e, se esses modos de expressão resistiram aos séculos, a questão temporal terá sido vencida, como quando, para usar exemplo extremo, nos postamos diante de pinturas rupestres nas paredes de grutas. O que essas pessoas quiseram dizer para os humanos que viriam? Por que acreditaram ser importante mandar mensagens através do tempo? Conseguem dizer muitas coisas, para quem se interessa.

E tem sido assim, séculos de interação física e mental, de forma a ser impossível a plenitude humana no isolamento. Se o fim de cada um for mesmo “ser feliz”, parece-me que Tom Jobim estava certo, é impossível ser feliz sozinho. Aquilo que faz cada um sentir-se feliz também muda, talvez por isso precisemos o tempo todo mudar a nós mesmos, o que em grande parte necessita de outros – pessoas, animais, objetos e até mesmo manifestações artísticas de tempos longínquos.

Acredito que o aspecto central é o modo como a questão é colocada, e na base desta está a qualidade da interação que se busca. Se a qualidade, reconhecida ou presumida, é baixa, se o encontro possível pouco interessa, é natural a solitude. É parte do amadurecimento procurarmos as conversas, os filmes, os livros etc., que mais enriquecem, ou relaxam, ou qualquer outra coisa. São escolhas.

Preferir períodos de reclusão para meditar como meio de alcançar evolução interior (sem qualquer misticismo nisso), um maior entendimento de si e dos outros, é tentativa de viver melhor. O contato consigo aprimora sensações, organiza ideias. A necessidade de solitude difere não só entre as pessoas, mas entre diferentes fases da vida de cada um.

Contato e estímulo nos fornecem abstrações e a meditação as elabora de uma forma útil. Vivemos em constante troca. Trata-se, ao final, de escolher o que e com quem se deseja trocar. Pode parecer lúdico, muitas vezes é. Não deixe que a oportunidade para um café fique restrita aos goles de um líquido escuro e quente.

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