Proximidade ou invasão?

O brasileiro muitas vezes tem a ideia de que a proximidade deve ser base de todas as condutas sociais, qualquer que seja a situação, em contraste com suposta formalidade. Daí para o consenso popular de que nosso povo irradia calor humano é um passo curto, como o é a ideia de que muitos europeus e os americanos são frios e distantes.

Há um equívoco nisso tudo, resultando muitas vezes em invasão de espaços, seja privado, seja público. Essa invasão reiterada leva à perda de regras de ordenação social e está na origem de alguns problemas nacionais.

Quantas vezes se exige de um funcionário, público ou privado, que ele sorria, demonstre simpatia e inicie uma conversa sobre amenidades, sob o risco de que dele se reclame, como se manter uma relação de proximidade fosse mais importante que sua competência e presteza? Alguém que não sorri durante o trabalho, pois não faz parte do trabalho o riso imotivado, e é altamente eficaz pode ser preterido, em especial quando a proximidade pretendida extrapola a moralidade e a legalidade. Ou não são descontraídas as conversas entre corruptos e corruptores, sempre em códigos que debocham da decência?

Não é possível, nem tampouco desejável, ter relação próxima com centenas de pessoas. Quem mora em cidade pequena vive a reclamar de que lhe tomam conta da vida. Preocupar-se com os outros é desejável e faz parte da vida em sociedade, mas essa preocupação merece ser restrita aos aspectos da vida em comum, não da intimidade ou da individualidade. Sem essa ressalva, ficamos expostos a perguntas desagradáveis e situações constrangedoras. Esse parece ser o ponto onde a proximidade excessiva toma ares de invasão. Os estrangeiros “frios” entendem muito bem onde fica a linha divisória.

Se todos tornam-se artificialmente íntimos, cria-se uma amizade de conchavos, onde os interesses de pequenos grupos prevalecem ante o interesse comum. Começa com um pequeno favor que está fora das regras do papel social de cada um, depois vem a retribuição do pequeno favor com outro favor também escuso. Uma sociedade de privilégios dentro da sociedade. Não é à toa que os desvios de conduta são menos frequentes nos países acima, bem como a punição naqueles é mais severa.

As pessoas desses países não são frias, elas evitam a proximidade que as colocará em situações embaraçosas, ou mesmo ilegais.

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