Questão de conteúdo

É mais fácil acreditar naquilo que vem da boca de alguém em quem se confia, pelo fato de darmos mais importância à figura que fala que ao conteúdo da fala em si. A primeira vez que me dei conta disso foi há alguns anos, durante uma aula muito concorrida, onde o professor disse algo assim:“durante uma aula, o mais importante para a comunicação é a postura e a linguagem corporal de quem fala, mais importante até que o conteúdo”. Evidente que a intenção dele não era dizer ser possível desprezarmos o conteúdo e que apresentações vazias, mas bem engendradas são melhores, mas chamava atenção ao fato de que a forma é importante. Essa é uma questão extensamente debatida no campo das artes: forma e conteúdo são indissociáveis. Ele, que provavelmente possui a melhor didática que já vi, é capaz de fazer essa união com maestria, por isso suas aulas são concorridas e o temos na mais alta confiabilidade. A forma como nós, seres humanos, nos organizamos socialmente nos coloca grande parte do tempo como expectadores, literalmente temos e criamos expectativas o tempo todo e cada vez mais. A quantidade massiva de informações geradas a cada segundo nos acostuma a “consumir” informação, ou, usando uma expressão muito comum em tempos de internet, consumir conteúdo. A quantidade de conhecimento acumulado e a velocidade com que este evolui nos trazem a um cenário onde é praticamente impossível poder avaliar de forma crítica tudo o que nos é apresentado. Quanto menos soubermos sobre um assunto, tanto mais boa-fé atribuiremos aos nossos interlocutores.

Boa-fé e traição são figuras antigas das relações interpessoais, calcadas na confiabilidade da palavra, como já tratei em texto anterior. O número de relações que travamos é cada vez maior, embora grande parte delas seja impessoal, um sinal do nosso tempo, por isso não faço juízo de valor sobre algo que me parece inevitável. Chamo a atenção para um efeito colateral da impessoalidade: a superficialidade, em especial com relação aos agentes da vida pública. Quanto maior a superficialidade, tanto menor a atenção ao conteúdo, em outras palavras, o aspecto externo, a aparência, vale mais que as ideias e as intenções. Essa tem sido a constante do debate público nacional – pessoas sem preparo falando com ênfase sobre coisas para as quais seu entendimento é rudimentar ou, pior, intencionalmente mentiroso.

Muito ouço sobre um suposto papel nocivo da propaganda, o qual seria facilitador da promoção de pessoas incapazes na maioria dos casos, pérfidas em outros tantos. Não acredito que a propaganda deva receber a maior parcela da culpa, quando ela tem a seu favor o argumento de ser um instrumento de propagação, podendo, até certo ponto, eximir-se da responsabilidade sobre o que propaga. Entendo os argumentos de quem culpa as agências de propaganda e o papel dos marqueteiros. Argumento semelhante é usado com relação aos advogados quando defendem criminosos que se locupletam com dinheiro público. É evidente que há uma relação entre as duas coisas, promover incapazes, por vezes também bandidos, e defendê-los da ação da justiça, muitas vezes podendo concorrer essas duas atividades profissionais para convencimento da opinião pública em favor dos infratores, pois, a seu modo, ambas tratam de convencer pessoas (nós, pessoas comuns, mas também os formadores de opinião e os juízes). Também não acredito que os advogados devam receber a maior parcela da culpa.

Ambas as profissões constroem e enaltecem imagens, trabalham para convencer-nos. Cabe a nós decidirmos “engolir” ou não. Ter capacidade de avaliar o conteúdo é essencial. O termo “imagens” poderia ser trocado por “personagens”. Façamos um exercício. Tente se lembrar de um personagem de literatura que tenha deixado marcas em você. Lembre-se também de a que obra esse personagem pertence e procure lembrar-se de outros personagens da mesma história. Você provavelmente terá dificuldades em se lembrar desses últimos. O motivo é que os personagens perenes têm conteúdo – ações, pensamentos, emoções – que nos marca de forma profunda e permanente. Os outros são superficiais, parte de um artifício do autor para concatenar a trama. A propaganda é capaz de criar um personagem superficial, secundário, que sucumbe a meia dúzia de perguntas para as quais não há respostas prontas e bem ensaiadas. Podemos lembrar os debates das eleições de 2014, paupérrimos na discussão de ideias.

Os bons entrevistadores de emprego sabem bem disso e com algumas perguntas separam os personagens laterais dos principais. Nossa vida pública anda cheia de personagens secundários, planos, alçados ao protagonismo por interesses escusos. E têm tido sucesso por conta de nossa inaptidão para o debate, além de certo descaso para com esses assuntos. Não há saída que não passe pela política, concordo com isso, mas estou certo de que precisamos brigar por mais conteúdo e menos propaganda.

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