Questão de tempo

Conversar com amigos faz bem, como já escrevi. Dessas conversas me vêm várias oportunidades de reflexão na forma de textos, como este de hoje.

Eu e um amigo, também médico, conversávamos sobre a dificuldade que enfrentamos quando dizemos ao paciente e à família que o melhor a ser feito é esperar, aguardar um período e observar até que o quadro clínico se torne nítido suficiente para a decisão mais acertada. Aguardar para ter ideias mais claras e completas antes da tomada de decisão serve para muitas situações da vida e é algo que se aprende com a idade. Mas posso escrever de outra forma: dar tempo às situações para melhor avaliá-las é algo que se aprende com o tempo.

O tempo é o elemento em questão, o motivo da celeuma, e esta não surgiu agora, está aí desde os primeiros relatos de que temos notícia. É muito difícil entender algo anterior ao tempo e para fazê-lo seria necessária maior ou menor dose de fé. Longe de ir por essa senda, ative-me a uma questão mais comum, a da sensação de passagem do tempo.

Comecei imaginando o tempo que alguém levaria para ir de um continente a outro antes de existir o avião. É normal, hoje, percorrer meio globo em menos de um dia, o que levaria meses no século XVIII; como é normal percorrer 400 km em menos de quatro horas numa boa estrada de rodagem, algo que nos obrigaria a dias de caminhada dura. Quando comecei a faculdade, íamos à biblioteca fazer pesquisa bibliográfica em um único terminal de computador com sistema DOS (alguém ainda se lembra disso?), aguardávamos os resultados da busca para depois de uma semana e, então, solicitávamos que a revista enviasse uma cópia impressa do artigo científico, pelo correio, ou seja, começaríamos a ler depois de um mês. Hoje, em menos de um minuto temos o levantamento bibliográfico e em outro minuto o texto impresso em nossa mesa.

A tecnologia tem permitido fazer muito mais coisas em menos tempo. Estaria isso nos dando a sensação de que podemos controlar o tempo, ou ao menos acelerá-lo para que as coisas aconteçam com outra velocidade? Pois é disso que conversava com meu amigo: há situações que nem mesmo os avanços de diagnóstico e tratamento em medicina conseguem suplantar a necessidade de simplesmente dar tempo ao tempo. A possibilidade de controlar o tempo é tentadora e as “maravilhas” da modernidade têm muito contribuído para a tentação.

Há uma sensação total da passagem do tempo, esse ente abstrato e infinito, ao passo em que há a “passagem interna” do tempo de cada um. A criança sente e entende o tempo de forma diferente do adulto, seja porque isso não é uma de suas preocupações, seja porque ainda não tem a sensação de finitude do seu próprio tempo de vida. É difícil precisar o momento em que nos tornamos adultos, mas acredito que parte desse processo envolva o instante em que nos damos conta de que morreremos, não quando isso ocorre em uma situação iminente de morte, mas quando, como aconteceu comigo, olhando o céu e vendo as nuvens se movendo rapidamente, não sei por que, tive a consciência de que morreria, um dia. Daí em diante passei a ter menos tempo de vida a cada segundo. E deve ser algo assim que explique por que os idosos não conseguem esperar, querem tudo resolvido no menor tempo possível e nos esperam no portão da frente da casa desde duas horas antes do combinado para pegá-los e leva-los à … consulta médica!

Alguns dias depois da conversa com meu amigo encontrei, entrando no hospital, uma mãe que encontrara na mesma situação dois meses antes. Estava feliz, disse que sua filha, internada há três meses, teria alta naquela tarde. Trabalhar em um hospital permite conhecer várias características humanas em situações extremas, uma delas é a tenacidade. Esse encontro remeteu-me à personagem Virginie, do conto “Um coração simples” de Gustave Flaubert, uma menina que passa meses doente, piorando lentamente até morrer, numa época onde mudar de ares era muito do que podia ser feito. Todos sofrem com sua morte, desesperados e impotentes diante do inevitável que veio com o tempo. Quando tentamos controlar (ou temos a ilusão de que isso é possível) o tempo estamos brigando com nossa impotência diante da finitude.

O tempo é um agente, dele depende muito dos acontecimentos das nossas vidas. Há algum tempo percebi que o tempo finito de cada um é o maior bem que se pode ter, e é algo que se deve escolher como e com quem usar. Tenho ojeriza da expressão “tempo é dinheiro” – quem a usa demonstra que não entendeu nada sobre o assunto. Prefiro outras, do senso comum, mas que têm raízes na nossa psicologia: “o tempo tudo cura”, “dar tempo ao tempo”, “é questão de tempo” etc.

Quem é tenaz sabe que tem de estar ao lado do tempo, brigar com ele é tolice.

4 thoughts on “Questão de tempo”

  1. Eu sempre fico pensando que os avanços da tecnologia, do acesso à informação e à facilidade na comunicação tem nos deixado ansiosos. Vejo que se tem cada vez menos paciência para esperar, fazer uma coisa de cada vez…. Eu sou professora, e sempre pensava nisso, eu me perguntava: o que eu posso ensinar que meu aluno não possa aprender no google em 5 minutos? Mas nunca tinha pensado com relação às doenças e às questões médicas. Isso, naturalmente, já seria algo em que todos desejam uma resolução rápida, porque as pessoas não querem ficar doentes, mas hoje em dia toda essa mudança deve ter afetado mesmo o comportamento das pessoas. Uau! Difícil! Mas são reflexões realmente necessárias. Me lembrou um texto que li durante o mestrado sobre a experiência: é preciso parar para ouvir o outro, para conviver, para aprender… Ninguém mais tem tempo para parar…..

    1. Verdade, Natália.
      Uma coisa que me intriga bastante é que hoje temos de gastar bem menos tempo com algumas atividades (transporte, produção de alimentos, etc) e a sensação é cada vez mais de falta de tempo. Concordo com você – um excesso de estímulos tem nos deixado ansiosos.
      Por coincidência, escrevi um texto, na semana passada, sobre a necessidade de ouvir o outro, e o quanto isso molda nossa personalidade – http://quintadaspalavras.com.br/papo-no-cafe/
      Obrigado pela visita. Fico feliz que tenha gostado.

    1. Oi, Bruna.
      Fico feliz que tenha gostado. Também já me frustrei muito.
      Acho que o melhor mesmo é ficarmos “do lado” do tempo. O contrário é briga vã.

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