Um conto escocês (ou diário de viagem)

Chegamos por volta de 5 horas, céu já negro, retocado por densas nuvens cinzentas. Um primeiro habitante aproximou-se, sorriso fino nos lábios ressecados pelo vento frio. Com dificuldade mostrei-lhe o endereço, ao qual conduziu-nos por via antiga, cheia de histórias que ouvíamos sem entender.

A casa onde viveríamos por pouco mais de um ano ficava num elevado, Partick, área próspera de Glasgow, onde era fácil comprar comida, depositar nosso dinheiro, tomar metrô e até mesmo trem com partidas para todos os pontos da imensa ilha. A poucas quadras, a universidade fundada em 1451, motivo de termos deixado a América do Sul.

  Univ. de Glasgow, final do inverno

 

Nossa acomodação não seria senão modesta, mas com vantagem inesperada: da cozinha podíamos ver toda a cidade: a algumas centenas de metros o rio Clyde, à esquerda o Parque Kelvingrove, bem ao fundo e à direita o Parque Verde, ao fundo e à esquerda o Parque Pollok. Isso tudo só foi possível distinguir após cinco meses: chegamos no final do outono e o que vimos na primeira manhã variava entre o cinza e o preto, com retalhos marrons e, para além, um branco infindável.

Garranchos de até dez metros ornamentavam a fachada no meu caminho até o trabalho, paisagem interrompida pelo maior museu que vira até então, a Galeria de Arte e Museu Kelvingrove. No primeiro dia fui recebido por um senhor, crescido uma milha a nordeste da universidade, na parte afastada do Jardim Botânico e à beira do rio Kelvin. Charles McSharry dizia que as casas eram poucas na sua infância, o rio limpo e o museu em construção. Orgulhava-se de ter visto a chegada da primeira múmia, da Coleção de Sir William Burrell.

      Museu Kelvingrove

 

A dependência de sua ajuda nas primeiras semanas fez-nos amigos. Mostrou-me as instalações da universidade, parando sempre que sua própria história exigia, como na sala que pertencera a William Thomson, ou Lord Kelvin, do qual seu pai fora assistente de laboratório – “Aqui surgiu a ideia do zero absoluto”.

O sol apareceu duas vezes nas primeiras semanas, sofrimento maior para minha mulher, que quase não saía de casa. Perto do Natal, fomos ao Teatro Real ver “O quebra-nozes”. Na ceia de Ano Novo, Charlie mostrou-nos a gaita de foles, aguda e melodiosa. O uísque já conhecia, mas descobri meu rigor ao indagar, incrédulo: “Vocês colocam água no uísque”? Sim, escoceses colocam água da torneira no uísque. Passei a beber uísque com água. No primeiro dia do ano fomos surpreendidos pela iguaria escocesa, o Haggis, feito com miúdos de carneiro e temperos, cozidos no estômago do próprio animal.

Em fevereiro, trabalhamos por uma semana em Edimburgo, onde não teria ido não fosse obrigado. Ouvira relatos do sobrenatural nos becos, nas estalagens do século passado, na rede de esgoto e nas catedrais góticas. Charlie sorriu e disse que enquanto fosse dia, nada aconteceria comigo.

Fora da Estação Waverley, o olhar perdido de Sir Walter Scott, para sempre sentado numa pedra.

– Vê aquele morro a leste?

– Sim.

– É o Calton. As colunas são o Monumento Nacional da Escócia, homenagem aos mortos nas guerras napoleônicas. Espero nunca mais um escocês ir para guerra…

Aproveitamos a manhã na Galeria Nacional Escocesa, que guarda, entre outros, um Cézanne e um Rafael. Ao sul, a Milha Real, ligando o Castelo de Edimburgo ao palácio Hollyrood, ambos inacessíveis na época, à espera do rei George.

Charlie foi à Catedral de Santo Egídio, onde não me arriscaria, enquanto fui ao Museu Nacional da Escócia. O que vi impressionou-me mais que qualquer sobrenatural – o Relógio do Milênio, trazido de Leningrado, doação de Eduard Bersudsky e Tatiana Jakovskaya – geringonça de dez metros e um espetáculo secular de vícios e paixões humanas.

Semana monótona, exceto quando subimos o Assento de Artur, maior morro da cidade, para recolher amostras nos escombros de uma igreja.

– Segundo a lenda, Camelot ficava aqui.

– Você acredita?

– Não, mas acredito que esse era o melhor ponto de observação para o Mar do Norte. Escandinavos invadiram por aqui. Sorte não termos mais guerra…

Em abril ocorreu algo incrível para quem vive nos trópicos: cinza, marrom e preto foram encobertos por vibrante aquarela. No calor de 25 °C, conhecemos os bares escoceses: anchovas secas temperadas e alguns (ou muitos) half-half – uma dose de uísque e meia pinta de cerveja, nessa ordem.

Julho chegou e nos dias de descanso visitamos outras cidades. Em Falkirk, almoçamos na mansão do Parque do Calendário e, adiante, chegamos ao que restou do Muralha de Antônio, última fronteira do Império Romano. Fora da cidade, vimos o que sobrou da Roda de Falkirk, maravilha da engenharia que unia, por água, Glasgow e Edimburgo. Na manhã seguinte, em Linlithgow, pescaria próximo às ruínas do palácio onde nasceu Maria Stuart, Rainha da Escócia. À noroeste, em Stirling, o imponente Castelo que serviu de casa dos reis escoceses por mais de mil anos, e o Monumento a William Wallace, herói na guerra contra os ingleses.

Noutra viagem, com Charlie e sua família, para noroeste, rumo às Terras Altas, chegamos ao litoral e tomamos balsa para a Ilha de Skye, a mais bela da Escócia. No dia seguinte retomamos as Terras Altas – morros, pontes e riachos, muito mais belos que os que víamos em preto e branco nos filmes – e nosso destino final, Inverness, onde há grande lago, nada mais.

– Sabe por que estamos aqui? Há algumas décadas, pessoas dizem ver um monstro nesse lago, como um dinossauro. Quem sabe não o vemos hoje?

Não vimos.

    As “highlands”

 

No outono, trabalhei no Museu Hunterian, catalogando peças anatômicas de William Hunter e o espólio de Lord Kelvin, Joseph Lister e James Watt.

A uma semana do Natal, nos despedimos de Charlie e da Escócia. Mantivemos contato através de cartas. Numa delas, um Charlie desesperado escrevia sobre o recrutamento do filho para lutar contra tropas alemãs. Seria a última.

Um ano após o fim da guerra, retornei à Glasgow. Feliz ao ver as torres da universidade, o museu e nossa antiga casa, andava à beira do Kelvin, tentando reconhecer no fundo do Botânico, a casa de outrora. Relutava aproximar-me dos escombros, quando detrás de uma parede apareceu figura conhecida.

– Charlie?

 

Esse texto mistura realidade e ficção. Todos os personagens e locais são reais. Charlie, Eduard e Tatiana estão deslocados no tempo – nasceram após o início da Segunda Guerra Mundial, e estão vivos. Hoje há uma ponte para ir à Ilha de Skye, a Falkirk Wheel foi recuperada e continua sendo obra-prima da engenharia. O Reino Unido se envolveu em outras guerras. Cada vez mais pessoas dizem ter visto o monstro do lago Ness.

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