Uma criança feliz

“A gente era feliz e não sabia” – quem nunca ouviu essa frase saudosista? Duvido que alguém não a tenha dito ou ouvido quando o assunto era atribuir melhores predicados ao tempo passado, em especial à infância. É bem provável que haja sobrevalorização da infância, afinal o melhor tempo tem que ser o hoje, o agora – se não o é, devemos lutar por fazê-lo. Mas esse texto não é sobre lutas de adultos e sim sobre um garoto, em especial, e a criançada em geral.

No final do ano passado, um menino norte-americano descobriu uma ossada enquanto se escondia do irmão durante uma brincadeira. Seu faro para a novidade lhe disse que deveria mostrar aos adultos, assim o fez e, para surpresa de todos, tratava-se de um fóssil e o nome deste, após meses de escavação e estudo, foi revelado há alguns dias – estegomastodonte.

Não tenho dúvida de que o menino teve realizado o sonho de inúmeras crianças ao redor do mundo nos últimos séculos. A consolidação da arqueologia como ciência e a publicação de clássicos literários onde adultos e crianças seguem pistas sobre tesouros escondidos sob a terra instigam a mente infantil e germinam imaginação e expectativa, e estas duas, acredito, podem muito bem explicar por que temos a tendência de achar que os anos infantis são melhores que os da adultidade. Para uma criança, um pedaço de plástico, osso ou metal irrompendo a terra é um convite à exploração – o que será isso que está enterrado? E se for um tesouro?

Difícil frear a imaginação quando, ao sulcar a terra preparando-a para um jogo de bolinhas de gude, se encontra uma moeda antiga, um brinquedo ou uma tampa de garrafa de refrigerante. Eu e meus amigos de infância tínhamos coleções dos achados subterrâneos, expostos como troféus.

Mas um osso… um osso era o melhor que se podia encontrar, era a esperança de que aquele fóssil fosse muito antigo, tão velho quanto um… dinossauro! Que fosse de um mastodonte ou um tigre dente-de-sabre já seria muito bem-vindo. E de um ancestral hominídeo, então? Seria a glória! Não tive a sorte do menino do estegomastodonte, mas minha imaginação mergulhou a cada torrão ou punhado de terra arrancados e aprendi que brincar é antes de tudo criar expectativas.

Hoje quase não se brinca nos quintais. Apesar disso, não quero ser saudosista e dizer que a infância de antes era melhor que a de hoje, esse anacronismo não nos ajuda. Incomoda-me as crianças alimentarem a imaginação somente na tela de computadores e televisores. Imaginar que se desenterra o osso de um dinossauro (mesmo que não seja mais que a sobra de uma rabada de vaca que a família comeu cinco anos antes, enterrada pelo cachorro e lá esquecida) educa a imaginação muito mais que explorar uma imagem digital tridimensional de um tiranossauro rex. Receber tudo de forma completa, ter as informações “a um simples toque no mouse” deve contribuir, e muito, para o fato de crianças e adolescentes não terem mínima noção de como e onde vêm as coisas que veem em supermercados, quitandas e padarias.

Que não restem dúvidas: acredito que as crianças devem adquirir funcionalidade no mundo digital e interconectado de hoje, apenas faço a ressalva acima porque a infância é nosso local de viagem frequente e padrão (nem sempre, mas muitas vezes) de comparação com as dificuldades da vida adulta. Fuçar os quintais e terrenos é o verdadeiro mapa dos tesouros que buscaremos até o fim.