Uma história (quase) bonita

Tenho ouvido coisas do tipo: “seus textos são muito sérios”, “gosto do que você escreve, mas podia escrever sobre coisas mais alegres”, e outras parecidas. Pensando em tudo o que já escrevi, publicado ou ainda inédito, tenho de dar razão às pessoas, a balança pende para o lado da dureza da vida. Vou, então, por caminho diferente hoje.

“Sandra tomou meia xícara de leite sem café e comeu um terço de um pão com manteiga. Seu estômago, empurrado para um canto da enorme barriga de nove meses, recebe comida somente até o ponto de não lhe causar falta de ar; come aos poucos e no mínimo seis vezes ao dia. Enquanto aguarda Jeandre chegar do trabalho, organiza a mala para daqui três dias (ou quando Deus mandar, Ele é quem sabe tudo), a chegada da bebê Amanda.

Os últimos seis anos foram de grandes mudanças na vida da futura mamãe – emigrante nordestina, chegou ao Rio de Janeiro, fez curso técnico em contabilidade e conseguiu emprego no escritório de uma grande loja de roupas, casou-se e está prestes a dar à luz. Está feliz, quem poderia dizer o contrário?

Jeandre trabalha no turno de onze da noite até sete da manhã. A casa na comunidade é alugada, mas já ajuntaram os documentos necessários para solicitar subsídio pelo Programa Minha Casa, Minha Vida.

O marido chega. Beija-a, pergunta se passou bem a noite, se teve contrações ou perdeu líquido, tudo que ouviram na última consulta do pré-natal. Nada, dormira como um anjo, só acordando duas vezes com Amandinha se espreguiçando. Saem para fazer compras no supermercado a dois quarteirões dali. No carrinho somente comida saudável – verduras, iogurte, queijo, carne magra –, alguns pacotes de fraldas e, nenhuma mamãe é de ferro, mais dois conjuntinhos de bebê em diferentes tons de rosa. Combinam que Jeandre vai na frente, levando as sacolas na bicicleta, e ela, andar lento de pata charmosa, exibindo com orgulho a barriga, caminha de volta para casa, não sem sorrir para alguns conhecidos e repetir a resposta pronta: “é para segunda-feira que vem”.

Pensando se já separou tudo, imagina os espaços na mala de Amanda, à espera do sinal verde. Primeiro pé na faixa de pedestres, o toque do segundo pé ao solo vem com um choque no pé da barriga. Sente Amanda chutar com os dois pés. Um líquido escorre pelas pernas – ergue a saia, é sangue. Sangue também na barriga, jorrando de um furo no vestido. Cai ao chão, gritando por ajuda”.

Se os leitores acompanharam o noticiário dos últimos dias, notaram que baseei a história de Sandra, Jeandre e Amanda na história, amplamente divulgada, de um casal e seu primeiro filho. Os dois passam pela situação mais desgraçada que se pode imaginar, a da iminente perda de um filho por um motivo tão abjeto quanto um assassinato por bala disparada num confronto entre policiais e traficantes.

Está difícil contar histórias bonitas com final feliz no Brasil. Não conheço os personagens da vida real, a não ser por reportagens, mas é bem provável que eles estivessem passando pelo momento mais especial de suas vidas até o fatídico momento da bala perdida. A literatura que aspira ser boa tem largo contato com a realidade, não necessariamente através de um texto jornalístico, mas de uma influência que se impõe para o relato de uma sociedade em determinada época. Perdoem-me, prezados leitores, mas a realidade tem me impactado de forma muito dura para que dela me esquive. Enquanto favela continuar sendo chamada de comunidade, com ares de normalidade em áreas dominadas por poderes paralelos encrustadas na maioria de nossas cidades, e quase 60 mil mortes por homicídio em um ano (dados do Ipea, referentes a 2015) continuarem noticiados de forma banal, estupefaciente não deixará de ser nada além de uma boa palavra para ser pesquisada nos dicionários.

Não nos enganemos: não é à toa que se cantam as belezas do país, é preciso fazer peso no outro lado da balança o tempo todo (“é o nosso futebol”, “a mulher brasileira é a mais linda do mundo”, “o melhor do Brasil são os brasileiros”, “Brasil, um país de todos”, etc.). A propaganda do (suposto ou real) bom do país deve hipnotizar, atrapalhar nosso juízo da realidade, ou fazer com que olhemos tanto para outros lados até o ponto de subestimarmos em muito a gravidade de nossa situação.

Leitores, querem um papo reto? É o seguinte: quem mais contribui para manter-nos nessa “realidade paralela” – quais sejam, corjas de políticos, juízes e empresários – dispõem de dezenas de seguranças e dificilmente sofrerão as consequências a que estamos sujeitos todos os dias em cada esquina, aguardando o sinal verde.

Mais: sabem a real? A real é que enquanto você lê essas linhas, é bem provável que as corjas estejam costurando um grande acordo para que todas escapem da cadeia que se vislumbra pelas ações da Polícia Federal e do Ministério Público, sem a mínima preocupação com a guerra urbana que toma conta do país. Sim, clichê assim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *