Uma pergunta dificil

Hoje fui interpelado por um menino inteligente: “Fala uma coisa que você sempre quis que não existisse”? Algumas respostas imediatas apareceram: a morte, o sofrimento, a maldade, pernilongo, bomba atômica, cobras, segunda-feira …

Embora todos sejam entes que em algum momento na vida nos trazem sentimentos ruins ou desconforto, é inegável que há vários argumentos para a existência ou a importância de cada um deles. De compensação em compensação, perseverei em encontrar algo que pudesse deixar de existir e assim resultasse apenas e tão somente em bem para a humanidade, os seres vivos, a matéria e tudo mais que exista. Comecei dessa forma porque acredito que ninguém quererá terminar a existência de algo que seja bom para todos ou pelo menos para algum ser, pois vale o raciocínio contrário: se é bom e útil para quem ou o que quer que seja, como desejar eliminá-lo?

O que seria ao mesmo tempo ruim, desprezível e inútil, e que sendo eliminado levaria apenas a resultados inversos, ou seja, bondade, dignidade e prestimosidade?

Cada um dos caminhos, quer dizer das possibilidades de “coisas que não quero que existam”, levava-me à argumentação inversa: a partir da altivez eu tentava encontrar a vileza e nesta buscava algo de que pudesse dispor – deparava, inegavelmente, com a utilidade do vil para a expressão do altivo, fazendo uso do que inicialmente pretendera desprezar, o que impedia meu desejo de que deixasse de existir.

Seria necessário conhecer alguma coisa, de preferência inconsciente, que não pudesse ser apreendida através da linguagem e quiséssemos nos desfazer dela sem prejuízo a tudo que existe. Não sei se é possível. Vou ter de deixar meu pequeno amigo sem resposta, ao menos por ora. Algo me diz que através da retidão e da busca pela altivez do espírito podemos nos livrar de algo que sim, gostaria que não existisse, mas que existe bem fundo dentro de cada um e permanece inominável, e que num vislumbre posso suspeitar seja a indolência.

Deixe um comentário