Viva as provas bimestrais!

Até hoje sonho, depois de quase vinte anos, com uma prova da faculdade. Há mais de uma versão do sonho: não compareço à faculdade no dia da prova, ou não estudei uma linha sequer ou não atinjo a nota mínima, e ao fim sou reprovado naquele ano. Nunca estive nem perto de ser reprovado nessa matéria. Não vou conseguir resposta exata do porquê de o sonho persistir, mas há um fato que acredito estar relacionado: nosso pavor diante dos testes da vida. As provas, desde a infância, estão entre nossos primeiros desafios. E, vejam, são obstáculos que se não transpostos, o resultado será ficarmos no mesmo ano (escolar, claro, mas como se não avançássemos, não evoluíssemos). Duvido que alguém tenha ouvido pela primeira vez falar das avaliações escolares através de frases positivas, tranquilizadoras ou de alegria. Concordo, não é mesmo para tanto. Mas não poderia ser ao menos neutro?

Continuo – contando com grande dose da sua boa vontade ao não ter desistido desse texto –, dizendo que muitas vezes nos revoltamos com desafios e obstáculos da vida cotidiana porque não nos empenhamos em entender seus motivos de existir. No caso das provas, o motivo evidente é avaliar se adquirimos uma quantidade adequada de informação e alguma habilidade para aplicá-la.

Vamos substituir, de forma grosseira, adquirir informação por memorização e habilidade prática por conhecimento. Não podemos negar que conhecimento é um dos objetivos finais da instrução que nos é fornecida na escola. Comecemos por ele.

O conhecimento, agora de forma mais refinada, ocorre quando há apreensão de algo (vamos chamar de objeto) pelo pensamento ou pela mente. Quando entendemos algo equivale a dizer que formamos uma representação mental do objeto – quase sempre acompanhado de uma frase do tipo “Ah, então é assim! ”.  Mas isso é um conhecimento incompleto. A completude do conhecimento só ocorre quando conseguimos elaborar uma representação externa do objeto, ou seja, quando demonstramos ser capazes de fazer uso do que foi apreendido, e através das nossas próprias “ferramentas” mentais ou capacidades – que equivale às questões de prova que pedem “Responda com suas próprias palavras…” No fundo, a intenção não é avaliar se nós “sabemos” algo, e sim se é possível reconhecer o objeto original a partir da representação externa que dele fazemos.

Isso tem aplicação evidente para as atividades práticas, de utilidade direta, ou seja, a maioria de nossas profissões. Um exemplo de atividade prática onde se faz essencial a representação é a medicina. Não sem propósito, o primeiro contato do aluno com o paciente ocorre na disciplina de semiologia, a qual trata de capacitar os alunos a apreender sintomas e sinais (representá-los na mente, usando termos técnicos) e organizá-los de modo racional para exposição na forma de um diagnóstico (também este uma representação, externa), o qual deve o mais possível se aproximar das características do objeto (nesse caso a doença do paciente).

Acredito que o exposto até aqui seja defesa suficiente da necessidade de avaliações da nossa capacidade de representar o que nos é apresentado (ou ensinado). Indignar-se quando é requerida uma representação externa do conhecimento nada mais é que negar-se a completá-lo.

Ainda nessa seara, corro risco mais elevado: e se o objeto a ser apreendido for uma obra de arte? Obras de arte o são, em grande parte, por permitirem diversas interpretações e atribuições de valores. De fato, uma obra de arte só é completa ao encontrar quem com ela interaja, senão é apenas latência. E a multiplicidade de sensações desencadeadas por uma obra de arte é fonte das muitas interpretações que ela tem e é apenas um dos motivos de nossa dificuldade em “explicar” ou dizer o que sente diante de uma obra de arte genuína. Diferente do caso das atividades de aplicação direta, o objeto das artes contém múltiplo significado, além de boa parte do que transmite ser captado de forma inconsciente, motivo de cada obra de arte raramente significar o mesmo para diferentes observadores. Outro aspecto incontornável para a maioria é que somente uma pessoa com habilidades artísticas semelhantes às do autor da obra poderia realizar uma representação externa que permitisse o reconhecimento daquela sem a ela recorrer. Em outras palavras, teríamos que ter a habilidade de Caravaggio para representarmos Judith cortando a cabeça de Holofernes com toda expressividade, riqueza de detalhes, controle de sombra e luz etc., por ele pintados.

Para além do efeito estético no nível subconsciente, podemos tentar entender por que determinada obra nos agrada e porque umas agradam mais que outras. Aqui, sim, podem ter utilidade as ferramentas que aprendemos a usar em nossa instrução escolar geral e em nossas atividades utilitárias (profissionais), ao lado de nossas memórias, emoções e sensibilidade.

Afinal, provas são ruins? Tendo em vista a persistência do meu sonho, há argumento para dizer que sim. Mudando um pouco a posição da qual se vê a questão: as provas são ruins ou a pressão psicológica a que fomos expostos, às vezes esmagadora, antecedendo as provas fizeram delas sessões de tortura?

Encaremos com determinação os obstáculos que nos obrigam a desafios intelectuais, pois estes nos fornecem aparato mental para compreensão dos eventos de nossas vidas e tomadas de decisão, algo essencial na vida adulta, e também para algum senso estético. Por isso me espanta saber que escolas estão abolindo as avaliações tradicionais até anos da metade do ensino fundamental, substituindo-as por avaliações que os próprios alunos fazem de si mesmos. Pelo escrito acima, imagino o perigo que isso representa.

2 thoughts on “Viva as provas bimestrais!”

  1. Por isso que eu sou auto-didata. Eu estudo o que eu quero e entendo do meu jeito; que não é menos preciso do que o jeito do Professor Fulano. Qualquer um dos pois pode estar errado. Mas se eu cair em erros que seja MEUS ERROS!

  2. Alguns outros desusos estão em curso.
    Não sabemos, entre outras questões, a qual adulto em construção e a qual intelecto nos referimos.

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